quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O real problema

Apesar das divergências, eu respeito os liberais convictos, que acreditam que o livre-mercado é o ideal de modelo econômico a ser adotado para se chegar à justiça social. Essa diferença de meios para se atingir um ideal é perfeitamente compreensível. A meu ver, o problema não são eles.

O problema são os que acham:
- que o bolsa família é só uma esmola para comprar votos;
- que as feministas são mal-comidas;
- que negros não são discriminados;
- que bandido bom é bandido morto;
- que mulher de roupa curta pede pra ser estuprada;
- que pobre só continua pobre porque se acomoda;
- que a polícia não é truculenta ou que apenas responde às agressões que sofre;
- que se combate a criminalidade aumentando as penas, reduzindo a maioridade penal e maltratando presidiários;
- que a ditadura militar foi boa para o Brasil;
- que o MST é um grupo terrorista;
- que ser viciado em drogas, se travestir ou se prostituir é falta de caráter;
- que os nordestinos é que são o problema;
- que índio é tudo safado;
- que ateísmo é sinônimo de rebeldia sem causa;
- que o Estado laico é frescura;
- que as políticas públicas devem seguir preceitos bíblicos;
- que casamento é só entre homem e mulher;
- que os black blocks são só bandidos mascarados;
- que fazer protesto e greve é coisa de desocupado e vagabundo;
- que sindicalismo é um atraso de vida;
- que o Feliciano e o Bolsonaro estão fazendo um excelente trabalho, enquanto o Jean Wyllys é o verdadeiro anti-Cristo;
- que é só coincidência que "tiros acidentais" fatais da polícia só ocorram nas periferias;
- que os "autos de resistência seguida de morte" não são execuções sumárias da polícia;
- que favelado é tudo bandido;
- que funkeiros são promíscuos e imorais;
- que as regras gramaticais devem ser sempre rigidamente respeitadas e quem não as segue é ignorante;
- que Joaquim Barbosa é o herói nacional;
- que preso doente tem que morrer, e não se tratar;
- que condenação sem prova é aceitável, desde que seja de desafetos políticos;
- que o Mais Médicos é um programa eleitoreiro e inútil, porque não faltam médicos, mas apenas infra-estrutura;
- que a Medicina deve curar doenças e não cuidar das pessoas doentes;
- que a grande mídia é neutra por não opinar expressamente sobre as notícias;
- que as piadas do Danilo Gentili são inofensivas, estando erradas as vítimas que inadvertidamente ficam ofendidas;
- que o modelo ideal de sociedade é o dos EUA - com seu culto à violência, à arma, à guerra, ao dinheiro, ao consumo e ao individualismo;
- que é o islamismo fanático a grande causa do 11 de setembro;
- que o terrorismo justifica guerras;
- que a função da escola é apenas ensinar, e não educar e formar cidadãos críticos;
- que ordem, autoritarismo e disciplina são sempre ótimos sinais;
- que "capitalismo", "burguesia" e "classe trabalhadora" são palavras sujas e proibidas;
- que Karl Marx, Che Guevara e Satanás são a mesma pessoa;
- que os estudantes da USP que protestam são maconheiros que não querem nada da vida;
- que não há nenhum problema em empresas privadas financiarem campanhas eleitorais;
- que morador de rua tem que ser varrido do mapa;
- que deveriam castrar as mulheres pobres;
- que funcionários públicos são todos vagabundos que deram um jeito de "se encostar" no Estado;
- que todo mundo que discorda de qualquer das ideias acima é malvado, por ser um comunista adorador de Stalin que quer implantar no Brasil uma ditadura cruel.

Esses sim me preocupam e desanimam, causam medo, calafrios e pesadelos.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Uso de animais em experimentos

Publico o texto de um amigo meu, Guilherme Kamitsuji, sobre os experimentos com animais, com o qual eu não necessariamente concordo, mas acho a discussão muito relevante.

"Ganhou grande repercussão na mídia o grupo que invadiu o instituto Royal para libertar os cães da raça Beagle utilizados em experimentos. E mais uma vez, foi novamente aberto o debate sobre a utilização de animais em pesquisas científicas, evidenciando muitas vezes que por trás de argumentos supostamente a favor da bioética, se escondem apenas visões apaixonadas e desconhecimento científico.

Um argumento aceito sem nenhuma contestação, quase uma verdade absoluta, utilizado pelos ativistas dos direitos dos animais, é o de que os países “civilizados” estão abolindo de vez o uso de animais em experimentos.

 Antes de mais nada, o que não levam em consideração é a amplitude das pesquisas em saúde. Temos pesquisas sobre doenças causadas por parasitas, vírus, fungos, bactérias e tumores, doenças auto imunes, doenças tropicais (ex. malária, doença de Chagas), doenças decorrentes do estilo de vida moderno, como é o caso do diabetes e a hipertensão, e das relativas ao aumento da longevidade. E claro, existem as pesquisas sobre a eficácia de medicamentos para todas essas doenças. Pergunto: todas essas doenças utilizam o mesmo tipo de experimento? São todas pesquisadas da mesma forma. A resposta, obviamente, é não, cada uma delas possui peculiaridades que podem afastar, ou não, o uso de animais.

Existem muitos tipos de pesquisa em que o uso de animais já está sendo dispensado, como no caso de alguns cosméticos. Mas não é verdade que o uso dos animais é dispensável para todos os tipos de experimentos. Infelizmente isso ainda não é possível. A diversidade de doenças e remédios é tão grande que não existe um modelo de experimento comum a todos eles. Cada tipo de doença, cada classe de medicamentos possui especificidades que podem, ou não, exigir que animais sejam utilizados nos testes.

Outro argumento utilizado é o de que apenas 6% (alguns dizem 10%, outros 1%, aí a manipulação de dados rola solta) desses experimentos tem algum resultado conclusivo, chegando, de fato, a testes clínicos em humanos, o que levaria à conclusão de que os testes em animais deveriam ser abolidos.

Ocorre que o que eles não se dão conta é que a ciência se faz com base em tentativas e em observação, principalmente quando se trata das biomédicas. E sempre ocorrem muito mais erros do que acertos, porque não são ciências exatas. Os animais – nós incluídos – têm uma infinidade de características que podem levar a respostas diferentes a um determinado medicamento. Apenas para exemplificar: os cães têm alguns tipos de anticorpos que não temos, o mesmo para os ratos, os bovinos etc. E seu organismo pode metabolizar ou não algumas substâncias. Isso sem contar que as características individuais, como idade, peso, tamanho, tipo sanguíneo, entre outros, podem influenciar no resultado do experimento.

Só com base nessas variáveis descritas já é possível ver que para chegar a uma conclusão simples, como a de que para tratar uma infecção é necessário tomar dois comprimidos de 1 mg, duas vezes ao dia, por uma semana, é necessário um número enorme de experimentos e testes, antes de se chegar a um dado seguro. Isso sem contar os testes que foram feitos para chegar à conclusão de que um determinado fármaco é eficiente para combater uma determinada doença.

É por isso que aquela porcentagem, embora pequena, em nada serve para abolir o uso de animais. Para se chegar a um dado conclusivo é preciso uma quantidade enorme de testes, que em sua maioria vai dar errado. Seria ótimo se houvesse outro jeito. O que os ativistas não conseguem é mostrar alternativas. Só dizem que a porcentagem é baixa e que por isso deve acabar. Ponto.

A todo instante nos deparamos com novas doenças. Quem há dez anos achava que teríamos uma gripe nova, como foi a gripe suína e a aviária? Há 40 anos não conhecíamos a AIDS. Não é questão de colocar o dinheiro em primeiro lugar. Medicamentos importantes, vacinas e outros tipos de tratamentos são desenvolvidos com base em testes em animais. Drogas para câncer, AIDS, pesquisas com células tronco, tudo isso hoje é pesquisado com animais.

A todo momento nós temos que lidar com doenças novas, novas drogas são descobertas, podem aparecer novos tipos de neoplasias, os microorganismos estão em constante mutação, enfim, não se pode generalizar, nem todos os testes dispensam o uso de animais, infelizmente. Seria ótimo se fosse desse jeito, mas não é.
E mais: quem disse que conhecemos tudo sobre fisiologia, biologia molecular, genética, imunologia, farmacologia etc? Ainda há muito a ser descoberto e pesquisado. E os animais ainda terão muito a contribuir nessas descobertas. Descobertas que um dia podem ser a diferença para a cura da AIDS, da dengue, do mal de Alzheimer, entre tantos outros males que matam milhões de pessoas todos os anos.

Causa muita comoção ver animais serem utilizados em experimentos. Mas antes de criticar, de chamar os cientistas de mercenários, os ativistas precisam entender como se faz pesquisa, quais são as variáveis envolvidas, o que dispensa e o que não dispensa o uso de animais, antes de chegar a posicionamentos radicais como o de que os testes devem ser abolidos por completo. Ciência se constrói com base em tentativas e, principalmente, em somatória de conhecimentos, das contribuições de todos os pesquisadores. Seria muito mais útil se apontassem alternativas factíveis, e não argumentos rasos como “os países europeus já estão abolindo”, sem levar em conta qual tipo de medicamento ou doença está se levando em conta."

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Estágio obrigatório no SUS e a função social da Medicina

Fato 1: Médicos raramente ou nunca fazem manifestação contra os planos de saúde que tanto os exploram e nem contra as más condições do SUS e nem contra a concessão de diplomas por faculdades de fundo de quintal.

Fato 2: Entidades médicas não soltam notas de repúdio contra profissionais que (i) batem o ponto e vão embora, no SUS; (ii) cobram “por fora” consultas do SUS, (iii) passam na frente pacientes “particulares” (sem convênio), em detrimento dos que arcam com planos de saúde, (iv) cobram “por fora” dos convênios para realizar procedimentos complexos (v) sendo peritos, sempre inocentam seus colegas, mesmo que tenham cometido erros grosseiros, (vi) atrasam reiteradamente o horários das consultas.

Fato 3: O Programa Mais Médicos hoje paga R$ 10.000,00 por mês (mais uma ajuda de custo que chega a R$ 30.000,00 nos primeiros meses), valor que não pode ser considerado totalmente fora do que o mercado privado paga para quem acabou de se formar em Medicina.

Levando em consideração esses fatos, por que está havendo esse reboliço todo da classe médica contra as medidas pretendidas pelo governo federal para distribuir territorialmente os médicos e melhorar a saúde pública em áreas remotas do Brasil?

A inexistência de médicos em lugares longínquos é um problema de mercado, afinal, eles não querem ir onde precisariam, por não receber tanto quanto acham que merecem ou por outras razões. O Estado tem duas opções: aceitar o problema ou tentar combatê-lo.

Deixar tudo como está, como fez até agora, está fora de cogitação. Ao querer resolver a celeuma, devem ser adotadas algumas políticas públicas, que podem ou não contrariar interesses de classe. Pagar R$ 10.000,00 a médicos recém formados certamente é uma boa tentativa de solução. Mas e se mesmo assim, 90% das vagas não foram preenchidas? O que está ocorrendo é que os médicos não querem ir, mesmo que por altos salários, para os lugares onde não há médicos. Como corrigir essa falha de mercado, então?

A ideia do plano de carreira pública é totalmente válida, uma vez que fixaria os médicos aos lugares menos favorecidos. Porém, juridicamente, há ainda o problema da competência constitucional para regular a matéria da saúde, uma vez que os hospitais públicos são administrados pelos Estados e Municípios, e não pela União. Quanto tempo demoraria para que todas as cidades tivessem um plano de carreira? Nesse meio-tempo, quantos miseráveis precisariam morrer por não ter um profissional que apenas diga por que eles estavam com febre e receitasse o remédio correto? Não obstante, é fácil prever que meso se adotada a medida, ainda assim os médicos, no mais das vezes, não serão atraídos a lugares esmos. O exemplo de São Paulo é eloqüente: recentemente foi instituída uma carreira pública com remuneração inicial superior a R$ 14 mil e mesmo assim não se preencheram as vagas disponíveis nas periferias e nas cidades mais afastadas. Pior, a mídia tem divulgado diversos casos de cidades muito longínquas totalmente bem equipadas e dispostas a pagar salários de quase R$ 20 mil, muito acima do "valor de mercado" do recém-formado, onde simplesmente não há candidatos ao trabalho. Não adianta se iludir e achar que a solução é só dinheiro. Não é.

E a solução de obrigar os recém-formados a ir aos locais onde não há médicos? Não parece uma boa solução, colocada dessa maneira, pois uma democracia não pode forçar, sob pena de sanções, pessoas livres a se deslocarem para onde não desejam ir. Seria uma espécie de serviço civil obrigatório, de notória inconstitucionalidade.

E dar ao médico que terminou a faculdade uma licença provisória e parcial para que apenas possa trabalhar na saúde pública por algum tempo, para depois exercer plenamente a profissão?

A questão, no fundo, é escolher se a Medicina será usada em benefício social ou se vai ser um mero instrumento mercantil de enriquecimento individual.

Pensemos no seguinte: por que é tão bonito que um médico recém-formado aceite ir trabalhar em uma região longínqua, sem ter disponíveis os confortos dos grandes centros, apenas pela satisfação de cuidar dos necessitados? Arriscaria responder que é porque se trata de um ato de cidadania e de solidariedade. Mas, ora, a cidadania e a solidariedade não são exatamente a base de uma sociedade mais justa e igualitária que se quer construir, em oposição à atual, baseada exclusivamente no individualismo, no consumismo e no dinheiro? Por que o Estado não pode adotar medidas para institucionalizar esses valores no acesso à saúde pública? Seria esse caso tão diferente de exigir que uma empresa cumpra sua função social, como determina a Constituição? Tendo a crer que não.

O Estado pode regulamentar os requisitos para a concessão do diploma. Há autorização constitucional para tanto no artigo 5º, inciso XII, da Carta Magna de 1988, segundo o qual “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”. Ainda, no inciso XVI do artigo 22 da Carta há atribuição expressa à União para impor "condições ao exercício de profissões".

Com efeito, então, estabelecer como requisito para qualificação profissional o estágio na saúde pública, além ter autorização expressa no ordenamento jurídico, parece ser um eficiente mecanismo de efetivar o direito fundamental à saúde, nos termos do artigo 6º da Constituição Federal. 

Outros cursos têm previsão de obrigatoriedade de estágio para a concessão do diploma, por que Medicina não pode ter? Nas faculdades de licenciatura, os alunos recentemente fizeram protestos e greves contra um programa do governo de SP que, por mais paradoxal que seja, diminuiu ou acaba com o estágio obrigatório, exatamente porque trata-se de uma etapa extremamente importante na formação do professor, cuja falta seria sentida na deterioração ainda maior da educação no Estado.

Dois valores estão em conflito aqui: de um lado o direito individual do médico-formando de utilizar os seus anos de estudos como ele bem entender e, de outro, o direito dos mais pobres de terem acesso à saúde. O Estado deve fazer o seu juízo de valor e decidir qual desses valores irá privilegiar. A medicina cidadã e social, voltada à saúde, ou uma medicina mercanitilizada, voltada ao dinheiro. É sintomático de uma sociedade enfraquecida que as pessoas se solidarizem muito mais com estudantes de medicina do que com as pessoas que adoecem e morrem por não terem acesso a médicos.

“Ah, mas o médico merece ganhar bem e ter o direito de escolher porque ele estudou para isso.” Outros profissionais de outros ramos também estudam até muito mais do que os médicos e recebem muito menos. Ofereça-lhes mais de R$ 10.000,00 por mês e, em geral, eles não vão trabalhar em qualquer canto do país. Por que a medicina tem que ser essa casta intocável? Porque o “mercado”, essa entidade inteligente, assim o deseja, já que ultra-valoriza esse profissional? Mais uma vez saliento, cabe ao Estado corrigir essas distorções anti-sociais do mercado. Ademais, seria uma situação temporária, vez que após recebida a licença definitiva vai ser perfeitamente possível o médico atuar, legitimamente ou não, apenas para o próprio enriquecimento.

A mensagem seria clara: “Esta sociedade não aceita que a Medicina, dado o seu essencial valor social, seja utilizada exclusivamente para fins particulares; para exercê-la, a pessoa tem o dever de colaborar solidariamente, ao menos um mínimo, com o acesso e direito à saúde dos demais cidadãos que se vêm apartados do sistema de saúde pública.”

O Estado, então, pode determinar que a licença definitiva do médico só será dada depois de realizado um período de trabalho nos lugares onde faltam médicos, ou seja, nas periferias e sertões do Brasil. Nunca é demais lembrar que, nos termos da Constituição Federal de 1988, nossa República tem como fundamento a cidadania e os valores sociais do trabalho (artigo 1º), além de ter como objetivos fundamentais a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a promoção do bem de todos e a redução das desigualdades sociais e regionais (artigo 4º), valores que no fim das contas, como já dito, coincidem com a motivação desejável do médico que se forma e vai, por puro idealismo, para os sertões do Brasil.

Penso, contudo, que o lugar onde esse serviço se dará deveria ser escolha do formando, mas se não houver vaga onde ele quiser, deve, então, esperar que alguma seja aberta, o que obviamente atrasaria a concessão da licença definitiva. Imagino, ainda, que deve haver atribuição de pontos extras nas provas de residência aos que forem para áreas distantes - já que a Medicina daqui é de culto à especialização, da qual a residência é uma etapa praticamente obrigatória (e nunca ninguém reclamou). Mais do que isso, em relação a áreas realmente críticas, deve haver uma redução no tempo de estágio, como incentivo a mais para que essas localidades sejam escolhidas.

Um dos efeitos colaterais benéficos dessa nova etapa de formação é que o médico recém-formado irá ter contato com as pessoas do mundo real, com seres humanos comuns, com os verdadeiros brasileiros, muito diferentes daqueles pacientes das clínicas particulares e dos casos escabrosos e incomuns dos hospitais universitários. Essa experiência é fundamental para o exercício digno e humano da medicina, totalmente conforme o juramento de Hipócrates feito por todos os médicos, que embora não tenha força jurídica, certamente possui grande valor moral.

Outros países já perceberam nessa obrigatoriedade um modo de efetivar a função social da Medicina e o direito fundamental à saúde de seus cidadãos. Suécia e Reino unido, por exemplo, países que consideramos democráticos, condicionam a licença para atuar como médico a dois anos de serviço obrigatório no sistema público de saúde.

Outrossim, o estágio obrigatório, nos moldes propostos, não se confunde com o vedado deslocamento compulsório ou serviço civil obrigatório, afinal, não há uma punição severa para quem não for trabalhar nos lugares determinados onde faltam médicos, sendo certo que a pessoa apenas sofrerá o dissabor de esperar mais para receber a licença definitiva, o que se encontra dentro das prerrogativas do Estado, como já dito. Quantos profissionais de outras áreas não são obrigados a migrar após se formarem, pois na região onde moram e fizeram o curso de graduação não há vagas na profissão que escolheram?

Por fim, em relação aos médicos estrangeiros, é muito positiva a ideia de criar uma prova diferenciada de revalidação de diploma, que confira licença provisória e limitada, para profissionais de outros países atenderem apenas na medicina básica e, ainda assim, nos lugares onde não há médicos. Afinal, todos sabem que o Revalida atual foi feito para reprovar, com perguntas extremamente difíceis e capciosas, que nada têm a ver com a medicina básica que falta nos interiores do país. O Brasil é um dos países onde há menos médicos estrangeiros, menos de 2% do total. Por que esse medo de abrir as portas aos profissionais de fora? Parece haver um excessivo protecionismo de classe. Diga-se, ainda, que se o argumento é que os médicos de fora precisam passar por uma prova difícil para proteger os pacientes de maus médicos (o que é perfeitamente justo), então, levando-se a ferro e fogo essa ideia de proteger os pacientes, teríamos que obrigar todos os médicos, brasileiros ou não, a passarem periodicamente por uma prova de dificuldade igual ao Revalida. 

Não seria mais simples, justo e produtivo criar uma nova prova remodelada para estrangeiros exercerem a medicina básica e preventiva? (Isso tudo para não dizer que há países desenvolvidos que sequer exigem alguma prova, bastando a comparação de grades curriculares para a concessão da licença para o médico trabalhar. No Canadá e Austrália, por exemplo, existe um exame de validação do diploma igual o Revalida, mas também há programas específicos que dão autorização especial para o médico atuar na áreas de maior carência de médicos.) Inclusive, pesquisas de opinião recentes mostram que, apesar dos esforços dos médicos para passar à população a ideia de que não faltam médicos e que os médicos estrangeiros são uma ameaça, a maioria apoia a vinda deles para onde os daqui não se interessam em ir.  

No meio tempo, obviamente, os governos devem fazer a sua parte: (i) melhorar as condições de exercício da Medicina, implementando infra-estrutura adequada, (ii) garantir que os profissionais, nesses locais distantes, tenham acompanhamento de profissionais já capacitados, como professores das universidades federais, (ii) revolucionar o currículo do curso de Medicina, para que dê ênfase na medicina humanista, preventiva e da família – com ênfase na pessoa humana do paciente-cidadão, através da interação e do diálogo médico-paciente, e não apenas na doença, nos exames e nos remédios – muito mais barata e eficiente para a melhoria da Saúde do que o modo mercantil atual, de ultra-especialização e concentração geográfica, (iii) ampliar radicalmente o número de vagas dos cursos de Medicina, com qualidade, (iv) implementar uma carreira pública de medicina, tal como a de juiz ou promotor.

Chegou a hora de ouvir a voz das ruas, que pediam melhoras na saúde pública. Os médicos têm o direito de se posicionarem contra medidas estatais que de alguma forma conflitam com seus interesses de classe, todavia, como restou demonstrado, a sociedade justa e solidária que, de acordo com a Constituição Federal de 1988, pretende-se construir não dá respaldo a seus argumentos meramente individualistas; mais do que isso, o que toda a ordem social está clamando é que se efetive, a curto, médio e longo prazo, a função social da Medicina e, por consequência, o acesso e direito à saúde de todas as pessoas.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Financiamento público de campanhas já!

A grande mídia vai começar agora uma campanha contra o financiamento exclusivamente público de campanhas eleitorais. Nada mais previsível, já que ela própria se beneficia largamente dando dinheiro para políticos aliados se elegerem.

Mas vamos pensar um pouco sobre o financiamento privado de campanhas: Empresa não fazem caridade, então, por que financiam campanhas de políticos? Obviamente se trata de um investimento da empresa, que vai cobrar daquele político, se eleito, a aprovação de projetos que a beneficie, e não necessariamente que melhorem a vida dos cidadãos. Essa relação promíscua entre dinheiro e política é uma das grandes raízes da corrupção. E já que um dos grandes problemas do país é a corrupção, o financiamento exclusivamente público é um dos melhores antídotos.

Ou será que um Presidente da República financiado por um grande complexo de hospitais vai aprovar projeto de melhora da saúde pública? Ou será que o deputado que recebeu dinheiro das grandes indústrias farmacêuticas vai ser a favor à distribuição gratuita de remédios? Ou será que o Senador que recebeu doações de uma associação de escolas particulares vai ter interesse em melhorar a qualidade do ensino público?

Todos podem ter direito a voto, mas enquanto um candidato - por ter recebido fortunas, por exemplo, de construtoras, grandes indústrias, empresas de mídia, grandes bancos, igrejas – tiver centenas ou milhares de vezes mais dinheiro para realizar sua campanha eleitoral que outro, os votos vão ter pesos muito diferentes.

O financiamento privado de campanhas é uma fraude à democracia, pois, no fim das contas torna-se um modo daqueles que possuem mais dinheiro comprar o voto dos cidadãos mais pobres, que, em geral, por não terem a devida instrução e educação política ou crítica, acabam votando no candidato cuja campanha tem mais projeção, ou seja, os que receberam mais dinheiro e que possuem mais dívidas com as grandes empresas.

Em todo ano de eleição são jogados pelo ralo bilhões de reais que poderiam ser muito bem gastos em outras áreas com maior benefícios sociais. É certo que com o financiamento público esse montante vai diminuir muito e, apesar do dinheiro sair dos cofres públicos, o retorno em termos de diminuição da corrupção e de reais investimentos sociais dos projetos políticos, direcionados agora exclusivamente a beneficiar os cidadãos, não as grandes corporações, será infinitamente maior do que os gastos.


Financiamento público já!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A loucura e o acordar


Certamente estaria internado por alguma doença mental o sujeito que há duas semanas afirmasse categoricamente que, ainda em junho:

- O preço da passagem de ônibus diminuiria em São Paulo e em inúmeras outras cidades pelo Brasil.

- O Haddad iria cancelar a licitação do transporte público e falar abertamente em estatização do transporte público.

- O Alckmin iria reduzir a tarifa do trem e do metrô, cancelar o aumento dos pedágios e prometer aumento do valor do auxílio-habitação.

- O Renan Calheiros iria defender o passe livre.

- O Joaquim Barbosa teria que vir a público dizer que não tem a menor intenção de se candidatar à presidência.

- O STF iria, pela primeira vez na vigência da atual Constituição, mandar para a cadeira um parlamentar em exercício.

- A PEC 37 seria arquivada.

- O Congresso aprovaria a destinação dos lucros do petróleo em 75% para a Educação e 25% para a Saúde.

- A Dilma iria chamar representantes dos movimentos sociais para conversar e mobilizar o Congresso para fazer plebiscito sobre a reforma política, tendo como pauta o financiamento público de campanhas.

- A Câmara dos Deputados aprovaria o fim do voto secreto para cassação de parlamentar e a corrupção como crime hediondo (tudo com apoio de Renan Calheiros).

- A Comissão de Constituição e Justiça do Senado iria aprovar a PEC contra o trabalho escravo, que confisca a terra daqueles que mantêm empregados em condições de escravidão.

- O imposto sobre grandes fortunas voltaria à pauta política.

- Todos veriam que a polícia não tem vocação ou treinamento para lidar com movimentos sociais e reivindicatórios.

- Em plena Copa das Confederações, milhões e milhões de pessoas sairiam às ruas protestar e o assunto mais comentado seria política.

- Senadores iriam estar trabalhando durante o jogo do Brasil.

- A Globo teria interrompido a transmissão da novela das 9 para televisionar protestos.

- Após tudo isso, a oposição se limitaria a dizer que a maquiagem da Presidenta é muito cara.


Talvez isso seja o tal “acordar” do povo brasileiro.

Sobre as medidas anunciadas pela Dilma

Medidas anunciadas e defendidas pela Dilma:

● Defesa da corrupção como crime hediondo, além de anunciar fortalecimento na transparência e punição severa a empresas envolvidas;
● Intimação a Governadores e Prefeitos para adiantarem e acelerarem a aplicação dos investimentos já contratados nos hospitais;
● Destinação de 100% dos royalties do petróleo para a EDUCAÇÃO;
● Maior ampliação de vagas de Medicina da história: criação de 11.447 novas vagas de graduação e 12.376 novas vagas de residência médica;
● Mais 50 bilhões de reais em mobilidade urbana e mais metrôs,
● Responsabilidade fiscal e controle da inflação;
● Criação do Conselho Nacional do Transporte Público com participação do POVO;
● Plebiscito para formação de uma constituinte sobre REFORMA POLÍTICA!

As medidas não são todas maravilhosas, ok, mas depois disso, se você continuar dizendo que a Presidenta não está agindo, que não liga para o que o povo está exigindo e que ela tem que se cassada, passo a ter certeza de que a coisa é pessoal mesmo.


(Postagem em 24.6.2013)

Pontos para reflexão sobre a Copa no Brasil

Pontos a se refletir antes de ser radicalmente contra a realização da Copa no Brasil:

- O orçamento total da Copa é de R$ 26 bi. Desse valor, R$ 16 biserão direcionados a investimentos de infra-estrutura, aeroportos, trânsito, mobilidade urbana, transporte público.
- Serão gastos R$ 7 bi com estádios para a Copa.
- O Governo Federal não bancará diretamente esse valor, mas vai sim financiar boa parte através do BNDES. Por informações do UOL (refutadas pelo Governo Federal), isso custará 1,1 bi aos cofres públicos.
- Com Saúde, o governo terá gastado ao final dos sete anos de preparos para a Copa, R$ 500 bi.
- Os investimentos no evento, segundo estudo da FGV, deverão movimentar R$ 142,39 bi na economia, gerando 3,63 milhões de empregos por ano e R$ 63,48 bi em renda para a população no período de 2010 a 2014.
- A arrecadação de impostos deverá ser acrescida de R$ 18,3 bi. O PIB brasileiro também terá impactos desse esforço da economia pública e privada.
- Sim, há problemas nas exigências da FIFA aos quais o Governo Federal deveria resistir em cumprir.
- Existem mesmo desapropriações exageradas, péssimas condições de trabalho dentre operários dos estádios, mas esse não é um problema exclusivo das obras da Copa, mas de qualquer obra estatal, basta ler os jornais.

Pense, faça as contas, reflita bem antes de sair por aí propagando desinformações. Conheça o problema primeiro, depois proponha as soluções.


(Postagem em 23.6.2013)