segunda-feira, 22 de abril de 2013

Maioridade e indignação seletiva

Semana retrasada morreu o estudante e todo mundo se colocou a favor à redução da maioridade penal, como se fosse resolver a questão da violência. Vai da consciência de cada um. 
Semana passada, porém, morreu um operário na construção nas obras do estádio do Palmeiras por puro descuido criminoso da empreiteira. No entanto, a mídia não deu qualquer destaque e, até agora, não vi ninguém exigindo o fechamento da empresa responsável (WTorres), o fim dos estádios de futebol, o encerramento de qualquer tipo de obras de construtoras nem nenhuma medida, leve ou extrema, para que novos assassinatos desse tipo sejam evitados. E o mesmo se diga a respeito da chacina que está acontecendo em Goiânia, onde só neste ano em torno de 30 moradores de rua foram assassinados, provavelmente por grupos de extermínio.
A vida de uns vale mais do que de outros? O que explica essa indignação seletiva?

P.S.: Sobre a redução da maioridade penal recomento fortemente a leitura dos dois textos abaixo:
Os menores e as penas, de Hélio Schwartsman, para a Folha de S. Paulo
Pela ampliação da maioridade moral, de Eliane Brum, para a Revista Época
Razões para não reduzir a maioridade penal, de Vinícius Bocato, na Revista Fórum


Fonte da notícia sobre o acidente com o operário:
Obras no Palestra Itália continuam interditadas e MP planeja multa à WTorres

O preço de um escravo


Está circulando por aí uma carta do sindicato das empregadoras domésticas (que me recuso a compartilhar), segundo a qual a emenda constitucional que ampliou os direitos dos empregados domésticos deve ser imediatamente revogada, pois trará um grande aumento de custos para a família de classe média.
Ok, é legítimo defender os próprios interesses. O problema é que para justificar seus motivos, a carta estabelece que uma empregada que ganha o salário mínimo e trabalha o dia todo, todos os dias, custará, devido às horas extras e adicional noturno, R$ 3.430,91 por mês.
Ouvimos falar da Revolução Industrial e ficamos horrorizados com as jornadas de trabalho absurdas, de 14, 16, 18 horas por dia, sem perceber que hoje, em 2013, tem gente que, sem nenhum tipo de constrangimento, vem a público defender o direito de impor uma jornada de 24 horas para os seus empregados!
Pelo menos aprendi uma coisa, que transmito a quem possa interessar: um escravo (ou um mucamo), no Brasil, hoje, sai por pouco menos de 3.500 reais mensais.

Ditadura gay?

Ditadura gay?
Ouvi alguém falando que estamos vivendo em uma “ditadura gay”. Eu, sendo hétero, que não teria nada a perder ao acatar essa ideia, comecei a pensar seriamente a respeito e percebi que:

Nunca vi igreja oferecendo cura para a heterossexualidade.
Nunca vi algum hétero ser agredido na cabeça, com uma lâmpada, na Avenida Paulista, pelo simples fato de ser hétero.
Nunca vi mãe e filho que se abraçavam numa festa apanharem por serem confundidos com um casal hétero.
Nunca vi alguém vincular a heterossexualidade com promiscuidade, nem falar que uma doença incurável sexualmente transmissível é um "câncer hétero".
Nunca vi alguém dizendo que casal hétero não pode criar filhos saudáveis.
Nunca vi nenhuma indignação contra as emissoras de TV que mostram beijos héteros, nem héteros serem expulsos do Shopping Frei Caneca por se beijarem.
Nunca vi nenhum hétero ter que brigar pelo direito de se casar com alguém do sexo oposto.
Nunca vi alguém deixar de ser contratado por assumir a sua heterossexualidade na entrevista de emprego, assim como nunca vi ninguém tendo que esconder sua heterossexualidade no trabalho.
Nunca vi nenhuma criança sofrer bullying pelos seus trejeitos héteros, nem adolescente ser expulso de casa por assumir namoro com pessoa do sexo oposto.
Nunca vi alguém esperar um hétero sair de perto para cochichar: "Se esse cara não é, leva jeito pra pegador de mulher" ou "que mulher mais feminina, deve gostar de homem"!
Nunca vi uma gritaria geral contra cartilha que ensina crianças a tolerarem e respeitarem a condição heterossexual das pessoas.
Nunca vi pastor afirmando que todo bom cristão tem que ser heterofóbico, e nem bancada de alguma religião impedindo a aprovação de projetos de lei que punem a discriminação contra héteros.
Nunca vi algum líder religioso buscar na Bíblia interpretações tortuosas para justificarem seu preconceito contra héteros.
Nunca vi novelas e comerciais mostrarem todos os personagens héteros de forma caricatural e estereotipadamente héteros, como se só essa característica lhes fosse importante.
Nunca vi a palavra "homem" ou "mulher" serem usadas como xingamento.
Nunca vi passeata de gente contra o casamento de heterossexuais estéreis, justificando-se pelo fato desses casais serem incapazes de gerar descendentes.
Nunca vi organização gay dizendo que o único modelo aceitável de família é o que eles próprios querem para si.

E eu não estou de olhos fechados, porque o oposto a tudo isso eu já vi e continuo vendo cotidianamente.

Ditadura existe sim, mas com certeza não é dos gays.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A culpa pelo caos

Hoje assisti a um pedaço do Jornal Nacional que noticiava a situação da coleta de lixo na cidade de Duque de Caxias-RJ. Lembrei-me rapidinho do porquê eu não assisto TV há tanto tempo.
Segundo a reportagem, a causa principal para o lixo não estar sendo recolhido é que a prefeitura parou de pagar a empresa responsável pelo serviço, e então, esta não mais realizou a sua parte do contrato, ou seja, parou de limpar a cidade. Em nenhum momento a reportagem deu a entender que a empresa estava errada em deixar de prestar o serviço essencial à população, de coletar o lixo, e talvez realmente não estivesse.
O que impressiona, de fato, é que a notícia foi completamente diferente das reportagens que tratam de paralisação de atividades públicas por causa de greves. Nesses casos, a grande imprensa monta as reportagens colocando a culpa do caos nos trabalhadores, e não nas empresas e governos que deixam de pagar os salários dos empregados ou se negam a cumprir sua prestação nos contratos de trabalho. Dois pesos, duas medidas. Às empresas é lícito resistir ao não cumprimento de um contrato, afinal, o ente público é que tem errou; mas, de outro lado, os trabalhadores lesados não podem protestar, pois devem se conformar em trabalhar sob quaisquer condições, recebendo salário ou não. Enfim, se a causa da imundície fosse a greve dos lixeiros, a reportagem certamente iria tratá-los como criminosos, como sempre faz com os grevistas e sindicalistas.
E o direito fundamental à greve vai, assim, sendo destruído dia-a-dia, enquanto o direito das empresas fazerem o que bem entendem vai sendo consolidado como absoluto, não importando às custas da dignidade de quantas pessoas.

O esquerdista e seu iPhone

Na mesma esteira do pessoal que fala mal de quem não gosta de Big Brother ou de quem é fã de Chico Buarque, virou moda também criticar o discurso da esquerda usando para isso os bens que a pessoa de esquerda possui. Exemplo: "Você fala mal do capitalismo mas tem uma conta no Facebook, que é uma empresa privada americana." ou "Você diz que é comunista mas tem um Ford!"

Por coerência, então, se um esquerdista não pode ter determinados bens, como telefone celular ou carro, então, a pessoa que é de direita ou “neutra” não pode votar, expressar-se, ir e vir, associar-se livremente, ter resguardadas a privacidade e intimidade, inclusive do lar; também não pode resistir a ordens arbitrárias e ilegais do poder público, mesmo relacionadas à pena de prisão, nem exigir ser tratada sem discriminação; não pode, igualmente, ter suas próprias crenças religiosas e convicções políticas, muito menos reivindicar direitos do consumidor, da criança e do adolescente, ambientais, trabalhistas ou previdenciários e nem mesmo qualquer direito à educação, saúde e segurança, além de outros muitos direitos individuais e coletivos. 

Afinal, todos esses direitos e garantias que hoje consideramos básicos, fundamentais, foram conquistados às custas do suor e sangue de milhares de esquerditsas, que ao longo da história lutaram para que todos, sem nenhuma exceção, pudessem ter uma vida digna. 


Claro que não pega bem um militante dos direitos humanos ter uma Ferrari, assinar a Caras, comprar na Zara, ter uma coleção de autênticos Rolex e comer frequentemente no Mc Donald’s. Mas essa ostentação toda não se compara ao simples fato de se possuir determinado tipo de bem de simples uso e conforto. Queiramos ou não, mesmo quem critica o sistema capitalista neoliberal selvagem, ainda está nele inserido. A ideia é mudar a situação atual, e não fugir dela.


Imaginemos a seguinte situação: Alguém critica um esquerdista por ter uma conta no Facebook, um carro e um telefone de última geração. 

Mas o que, de fato, se esperaria? Que o esquerdista deletasse seu Face e doasse seus bens para a caridade, afinal, se a pessoa quer maldizer qualquer característica do capitalismo, para ter coerência, deve se desvincular completamente do sistema? Deve fazer voto de pobreza, então? Carro, telefone, mobília, eletrodomésticos, livros... Tudo está contaminado com a saliva de satã? Ele não pode mais andar de carro, nem de ônibus, pois foram feitos por empresas particulares e pertencem ao capital? Locomoção, agora, só a pé? Morar em prédio ou casa? Não dá, pois essa arquitetura absolutamente funcional é capitalista, além de serem construídas pelo proletário explorado em benefício de porcos capitalistas? Comida? Só proveniente diretamente do que ele mesmo plantar? TV, música e filmes? Malditas sejam todas as emissoras, gravadoras e distribuidoras? É isso?

Para ser coerente, tem que fazer como o protagonista do filme "Na natureza selvagem", mas, mais esperto, ir para um cenário como o de "Lagoa Azul"? Tudo que tenha respingo da sociedade capitalista não lhe diz mais respeito?

E não se diga que esses exemplos são muito extremos, pois a própria crítica inicial, de exigir que a pessoa de esquerda não se conecte e não possua bens, já é o cúmulo do absurdo em si.

Criticar os que se indignam (não os seus argumentos), no fim das contas, é servir aos interesses de quem? Trata-se de um argumento que vem a calhar para a direita mais conservadora e reacionária, pois exige que os esquerdistas lutem desarmados, sem as ferramentas apropriadas no contexto atual, o que, convenhamos, é bem covarde. Essas formas de desestimular a indignação são de arrepiar, pois pessoas mais mal informadas às vezes tomam sua posição tendo em vista a opinião desses pseudo-comentaristas que, ao contrário de pecarem pela ignorância, escolheram deliberadamente defender o lado do opressor nos conflitos sociais. Esse pensamento é tão chulo quanto exigir que fuja de casa o adolescente que critica determinados comportamentos dos pais, ou pretender que obrigatoriamente peça demissão o funcionário que discorda do modo como o patrão está conduzindo os negócios.

Mas a boa notícia é que esses esquerdistas "incoerentes" estão se espalhando como pragas! Mais um pouco e eles vão estar promovendo distribuição de renda e justiça social, e, pior, de dentro, usando-se do próprio sistema capitalista, que absurdo!

Aliás, a Primavera Árabe, os movimentos Occupy, e as manifestações gregas e espanholas tiveram como locomotivas as redes sociais. 

Na verdade, nenhum esquerdista minimamente sério nega progressos e benefícios do capitalismo, mas se comove com a quais custas eles são forjados e a quem eles são primordialmente direcionados.

Interessante ver que todo mundo, hoje, critica o capitalismo - os presidentes do Citigroup e do próprio FMI, o Warren Buffet, o Bill Gates, até a liderança do partido republicano dos EUA- e os esquerdistas que têm uma conta no Facebook, um carro e um iPhone é que são irritantemente incoerente?

Então, se for começar uma discussão séria e madura sobre política ou direitos humanos, por favor, evite esse tipo de argumentação chula e vergonhosa, que procura, jogando para a plateia um cínico e velho truque, achar no “oponente” algo que supostamente o desabone, em vez de atacar os seus argumentos (“argumentum ad hominem”). Isso sem contar outras afirmações ridiculamente infantis, tipo “Cuba é uma porcaria, a China é totalitária e a União Soviética fracassou, então, logicamente, o capitalismo neoliberal é justo e maravilhoso” ou "É contra o capitalismo? Vá pra Cuba!". Sinceramente, para quem não sabe ir mais longe do que isso, o silêncio é uma boa opção, mas eu recomendo mesmo é um estudo mais aprofundado do assunto em debate para fugir desses impensados lugares-comuns.

P.S.: Por acaso, achei este texto, extremamente coerente, a respeito do assunto: Direita volver: A caduquice do franciscanismo de esquerda.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"Deus seja louvado" nas notas de real


Triste ver que tem gente ilustrada se manifestando na mídia contra os avanços do Brasil na conquista do Estado laico.
Ives Gandra, prestigiado jurista, escreveu recentemente sobre a retirada dos dizeres: "Deus seja louvado" das notas de real. (Estado laico não é Estado ateu). 
Porém, toda a argumentação que ele usa, intencionalmente ou não, esconde uma grande falacia, uma vez que ele apresenta um conceito de laicidade do Estado muito próximo ao de religiosidade de Estado. Ao afirmar que o fim dessa expressão nas notas de real significará a "vitória de uma minoria ateia", o jurista, em verdade propõe uma ditadura da maioria. E, como se sabe, uma democracia se mede exatamente pelo nível de respeito que se tem em relação às minorias. Uma vitória da minoria ateia seria, sim, se a atual inscrição passasse a "Deus não existe" ou algo do gênero. É exatamente por essa razão que a Constituição Federal impõe a laicidade ao Estado, para que nenhuma crença seja exaltada em detrimento de outra ou de crença nenhuma. 
Estado laico é neutro em relação à questão religiosa, não tomando qualquer partido e baseando as suas políticas nos interesses sociais e políticos, e nunca em qualquer orientação religiosa. 
E mais: dentre os inúmeros deuses nos quais os cidadãos acreditam, qual "Deus" será aquele a ser louvado, conforme inscrito na moeda?
Por fim, se é para adotar a ditadura da maioria, em última análise proposta pelo jurista, por que não colocar na moeda também algo do tipo "Viva o Corinthians e o Flamengo", afinal, a maioria da população torce para um desses dois times? Se não é tão difícil manter a neutralidade do Estado quando se trata de time de futebol, por que é tão difícil as pessoas aceitarem a neutralidade religiosa (laicidade)?
Sobre o assunto, há outro texto muito bom, cuja leitura recomendo fortemetne para quem quer se inteirar melhor da questão, do jornalista Carlos Orsi: Analisando as principais críticas à proposta.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Apolítico


"Odeio os indiferentes. Acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes. A indiferença é o peso morto da história." (Antonio Gramsci - La Città Futura)

O Apolítico sabe um pouco de política e, exatamente por não saber muito, faz questão de se abster do debate. Mais do que isso, taxa todos que tomam partido de radicais, bitolados, comunistas, nazistas ou algo do tipo. 
Esse Apolítico ainda acredita no homem virtuoso de Aristóteles (descrito no livro "Ética a Nicômaco"), que vive no meio-termo. Ele se mantém sempre em cima do muro. É supostamente neutro ou do centrão nebuloso. Ou, pior, coloca-se acima de todo o processo, achando que todos que tomaram posição não analisaram a situação tão bem quanto ele. Considera o fim da picada a tomada de posição pública e a defesa de ideias polêmicas.
Esquece-se, portanto, das lições mais básicas de Maquiavel, segundo as quais na política quem não toma partido é dominado pela política dos que a tomam e se manter inerte diante de uma injustiça é escolher o lado do opressor. Acredita que a humanidade não evolui, mas é cíclica, ignorando o suor e sangue derramados de milhões de pessoas que sofreram ou morreram lutando pela melhora de sua condição de vida. Pensa que hoje não existe diferença entre esquerda e direita. Aliás, ele cultua a política bipartidária dos EUA, onde, eleito, um republicano em nada se diferencia de um democrata e vice-versa, já que sempre há a tendência de se encaminhar para o centro.
A impressão que eu tenho é a de que o mais "cult", o mais esclarecido e descolado, hoje, é ser como o Apolítico, mantendo essa aparência de ponderação, de que tudo tem a sua devida e justa razão, como se tudo fosse apenas questão de opinião e como se fosse uma fraqueza tomar partido ou pender para um lado. Manter-se calado ou emitir opinões neutras é sinal de virtuosidade, o resto é fanatismo ou vício de percepção puro e simples. Quantos debates riquíssimos são abortados por esse novo zeitgeist?
Em geral, o Apolítico não usa as palavras capitalismo, neoliberalismo, consumismo, individualismo, nem dominação, por serem pretensamente ideológicas. Prefere os insossos "pós-modernidade", "globalização", "era pós-industrial", "geração facebook" ou "atual sistema econômico". Ele acha que o fim da história anunciado por Fukuyama chegou, a era de lutas sociais para conquista de direitos já passou, sendo essa modernidade excludente “irreversível”. Fala em "hipossuficiente", não em pobre ou explorado, acreditando se tratar de um termo técnico que não serve especificamente a nenhum interesse. Acha até bonitos os movimentos como Ocuppy Wall Street e a Primavera Árabe, mas logo infere que no Brasil não há qualquer razão para revoltas, exceto em relação à corrupção, falta de educação e altos impostos e encargos (gosta muito de culpar a legislação trabalhista pelo insucesso dos empresários).
Muitas vezes (para não dizer sempre) o Apolítico é contraditório. Ele odeia o PT por causa da corrupção e do Bolsa-Família, mas não hesita em sonegar impostos e aproveitar a redução de IPI para trocar de carro e de geladeira. Preocupa-se com o desemprego apenas para falar mal da legislação trabalhista, que supostamente dificulta a criação de empregos formais (basta ver os argumentos da classe-média contra os direitos das domésticas). Ele, por não enxergar que o ateísmo sim é a posição mais neutra possível em relação à religiosidade, afirma não acreditar no deus cristão, mas em uma força superior, pois pensa que ali ele encontrou o perseguido "meio termo" ideal. Ele consegue acreditar que responsabilidade social se resume a ter um projeto de plantar árvores, usar papel reciclado ou ajudar um asilo, não vendo nada de errado na poluição (o aquecimento global é apenas invenção dos eco-chatos), na política de incentivo ao uso de carros, no descumprimento de direitos trabalhistas e previdenciários. Para o Apolítico, é justo que o Gusttavo Lima e o Neymar ganhem mais de milhões e milhões por mês enquanto outras pessoas se esfolem de trabalhar dia e noite para mal conseguirem pagar o aluguel. É tudo questão de meritocracia, afinal. Ele fala mal dos hábitos deploráveis do povão, mas joga a bituca de cigarro no chão. Ele é educado com as visitas e com seu chefe, mas não com os atendentes, garçons, pedestres ou empregados.
Uma habilidade o Apolítico tem de sobra, que é a de se alienar achando que está se informando e se esclarecendo sobre o mundo à sua volta. Ele lê a Veja sabendo que ela tem fama de tendenciosa, mas, analisando as matérias, por concordar passivamente com tudo o que está escrito, acha um exagero dizer que a revista seja partidária, pois não consegue identificar como e o quanto ele está sento manipulado pela linha editorial de extrema direita. Chega a pensar que o Jornal Nacional é imparcial. Em estágio terminal, o Apolítico é capaz de, até para não polemizar, concordar com quem diz que "direitos humanos são só para humanos direitos", afinal, a frase tem algum sentido para ele.
O Apolítico é o que menos contribui ao debate, a meu ver. Respeito muito mais alguém convicto, mesmo que tenha opinião radicalmente oposta à minha opinião (vide meus arranca-rabos até com nazistas declarados via comentários no Facebook), mas disposto a discutir (utilizando o método socrático para engrandecer suas razões, pondo à prova a sua posição), do que esse outro descrito acima, que toma sempre o atalho mais fácil, menos dispendioso, menos custoso. 
Enfim, o Apolítico é, em verdade, um anti-político, afinal, política de verdade é feita para mudar os rumos da sociedade, e o que o Apolítico pretende, no fundo, é manter as coisas como estão, já que, evidentemente, como parte da classe dominante, beneficia-se do sistema.
Mais do que isso, até um tempo atrás eu mesmo tinha um perfil parecido com esse, mas quando comecei a procurar saber as razões dos dois lados da moeda de forma mais aprofundada - conversando com pessoas dos dois lados, lendo muita coisa a respeito também dos dois lados - a tomada de posição foi inevitável, a pílula vermelha, e não a azul (será coincidência a escolha das cores no Matrix?), já tinha sido ingerida sem que eu percebesse. E era, isso sim, irreversível.

(Atenção: O texto acima é uma ironia. Não foi feito para ofender pessoalmente ninguém. Claro que nem todas as pessoas que preencham uma ou algumas características acima são necessariamente apolíticas. Trata-se de uma generalização intencional, com a devida licença poética, mesmo não se tratando de um texto lírico.)