sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Liberalismo da Eugenia e do Higienismo

O Instituto Mises Brasil, principal think tank liberal do país, publicou no dia 19 de dezembro um artigo relacionando a miscigenação dos povos com o desenvolvimento dos países. Sim, é isso mesmo.

Para eles, quanto mais homogêneo, ou seja, puro, for o povo, menos desigual, como os países nórdicos. Quanto mais miscigenado e multicultural, como o Brasil, menos desenvolvido e mais desigual.

Isso foi ontem, não na década de 30. Qualquer semelhança com o nazi-fascismo não é, de forma nenhuma, mera coincidência.

Quando eu digo que o problema dos liberais brasileiros não é (só) falta de inteligência, mas de caráter, eu falo sério.

No fim eles perceberam que o texto, até mesmo para os padrões deles, era espanta-freguês e apagaram o post. Mas isso não significa que eles deixaram de pensar assim. Apenas voltaram a querer esconder.

Sobre Star Wars - Os Últimos Jedi

Imagina a tristeza, o desespero, o terror dos radicais de direita que gostam de Star Wars assistindo ao novo filme da franquia! Que delícia!

O filme é completamente explícito em sua crítica anti-capitalista. Esses nerds-geeks reacionários têm três opções bem claras: (i) tocam a vida como se nada tivesse acontecido, caso forem estúpidos o suficiente para não perceberem que, se aquele universo fosse real, eles estariam do lado do Império, da Primeira Ordem, dos Siths e de tudo que ali representa o autoritarismo, a negação da república democrática e, portanto, o mau; (ii) choramingam e fazem um “motim virtual” para tirar esse novo filme do cânone de Star Wars, como muitos estão fazendo (como se os filmes anteriores já não tivessem essa pegada crítica); ou (iii) percebem a vergonha que eles são e ficam quietinhos para não dar bandeira.

Em todas as hipóteses, eu me regozijo observando!

Amadurecimento Reverso

Eu não sou de ficar triste facilmente, mas quando me deparo com certos tipos de "evolução" no pensamento das pessoas, às vezes é inevitável. E é muito comum com gente da minha idade. Dizem que se uma pessoa não é socialista até os 30 anos ela não tem coração, e se ela ainda é socialista aos 50 ela não tem cabeça. Eu não poderia discordar mais dessa frase, mas ela indica algo que realmente acontece no mundo real. As pessoas, conforme ficam mais velhas, acham que ficam mais maduras e se tornam conservadoras. E ficam conservadoras porque, supostamente, elas têm mais o que conservar, em geral, bens materiais. Ocorre que isso não é um progresso, mas sim um tremendo retrocesso. Um “desamadurecimento”, afinal, o egoísmo é o maior sintoma de imaturidade.

Mais jovem, a pessoa estudava mais sobre questões sociais e se importava mais com a humanidade das outras pessoas. Mais velha, já afundada no trabalho e nas metas inúteis que às vezes ela própria se impôs, simplesmente para de se importar. Ela foi convertida à lógica da acumulação pura e simples. De bens, de status, de privilégios. Talvez faça uma caridade para lavar as mãos sujas, ou quem sabe nem isso. Mas, e aqui fica até cômico, talvez até consiga chegar ao ponto de acreditar que tudo que ela tem foi conquistado devido ao seu trabalho duro e ao próprio mérito. Sempre que eu me deparo com alguém que antes defendia o trabalhador e hoje defende banqueiro, passa o Star Wars 3, o mais triste, na minha cabeça. Sinto vergonha e, dependendo do caso, até asco. E tristeza. Mas é uma tristeza que passa rápido e que é contornada quando me lembro de gente que abriu os olhos a tempo e trilhou o caminho oposto. Pois comigo foi exatamente o oposto.

Desde os vinte e poucos, quanto mais o tempo passa e mais eu compreendo o mundo, mais fica clara a urgência de se refundar completamente essa sistemática de opressão-privilégio. Não que eu não goste de dinheiro e não queira ter o conforto que ele proporciona, mas realmente sinto que não faz o menor sentido que apenas eu e, proporcionalmente, mais alguns poucos tenhamos uma vida de relativa fartura enquanto os outros 99% das pessoas tenham negadas, e cada vez mais negadas, condições mínimas para uma vida digna. Um raciocínio nada muito diferente de quando eu tinha 12 anos e não conseguia entender de jeito nenhum porque diabos as pessoas queriam ter mais dinheiro do que o necessário para obter e manter uma casa e um carro. É esse moleque que eu tento honrar todos os dias. Aparentemente, minha única meta é chegar aos 50 sem cabeça. Ou melhor, com a cabeça de moleque. E, apesar de algumas tristezas, feliz.

Direitos Humanos

Imagina que louco se todo mundo que critica os direitos humanos ao menos soubesse que, na verdade, eles são os direitos

à liberdade, 
a não ser discriminado, 
à segurança, 
à liberdade de expressão, 
a não ser escravizado, 
a não ser torturado ou ser tratado de forma cruel, 
a ser tratado com igualdade em relação a qualquer outra pessoa,
a não ser preso arbitrariamente, 
a ser condenado apenas quando assegurado o devido processo legal com direito a defesa ampla, 
à intimidade e à privacidade, 
à integridade da honra, 
a se locomover livremente, 
a ter uma nacionalidade, 
a constituir família, 
à liberdade de pensamento, de opinião, de consciência, de religião e de culto, 
à liberdade de se reunir e se associar para fins pacíficos, 
a escolher seus representantes no governo, 
ao trabalho digno, 
ao repouso e ao lazer, 
a um padrão de vida que garanta a vida digna, 
à educação gratuita, 
à cultura, 
etc., etc., etc.

E esses são os direitos assegurados apenas na Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU (1946). Há centenas de outros direitos humanos espalhados pela Constituição, pelas leis e por outros tratados internacionais.

Enfim, eles são, talvez, a maior conquista da humanidade. Certamente a maior obtida no capitalismo.

Já disse isto, mas não custa repetir: Quem milita contra tudo isso não passa de uma besta, seja por falar mal do que não conhece, seja por querer voluntariamente perder os próprios direitos a uma vida digna. A pessoa imagina estar atacando o outro, mas o alvo é ela própria. Tal como um cachorro que late contra o direito dos animais ou uma árvore a favor ao desmatamento.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Reflexões sobre Breaking Bad

Assisti Breaking Bad pela segunda vez e deu para refletir melhor sobre algumas coisas, ficando ainda mais clara a riqueza temática da série. (Contém spoiler)
- Walter White é obviamente amargurado com seu passado, com o fato de não ter ficado bilionário como seus colegas que ele ajudou. Isso é fato. Agora, a gota d’água pra ele se tornar um “cozinheiro” de metanfetamina foi justamente o fato dele não ter dinheiro, como professor, para bancar o tratamento de seu câncer e para permitir que sua família viva bem após sua eventual morte precoce. Lá não tem SUS e nem previdência pública obrigatória. Se o cidadão doente não tem dinheiro, que morra. Se a família do morto não tem dinheiro, que morra. Caso existissem sistemas públicos, como nos outros países desenvolvidos, muito provavelmente ele não teria se aventurado na bandidagem.
- Hank, o cunhado agente do DEA, é tão psicopata quanto Walt. Sim, ele reiteradamente viola a lei e os direitos de defesa dos acusados, não tem nenhum respeito pela intimidade e privacidade dos investigados, odeia e repele advogados, persegue pessoas, tira fotos alegre exibindo cadáveres, faz justiça com as próprias mãos, agride pessoas sem qualquer constrangimento, é extremamente preconceituoso com as minorias, não espera mandados judiciais para agir, é terrivelmente grosso com a esposa, etc. Enfim, é um lixo de policial e uma pessoa horrível. E adivinhem: na cidade ele é visto como herói!
- A figura de Jesse mostra muito bem como os adolescentes tidos como problemáticos, com ocorrências em seus registros escolares, são excluídos pela sociedade mesmo depois de adultos. Sem apoio dos pais e sem dinheiro para estudar, resta a ele pouquíssimas opções na vida. Ou fazer o trabalho braçal extremamente mal remunerado, ou dar seus pulos. Jesse, que apesar de conflituoso é muito inteligente, acaba escolhendo o caminho tortuoso que a série mostra.
- Tanto Walt no seu lava rápido quando Gus na sua lavanderia usam mão de obra essencialmente formada por latinos em situação irregular, deixando bem clara a grande importância dessa população para sustentar os modos de vida dos estadunidenses.
- De forma notoriamente intencional a série quis colocar no mesmo patamar os crimes de Walt, de fazer metanfetamina, com os de Ted, de sonegar impostos. Tanto é verdade que Skyler decide ajudar Walt em sua empreitada criminosa quando percebe essa equivalência.
- Alguns diálogos são muito interessantes. Num deles, Jesse se revolta contra a superexploração do seu trabalho, pois ele e Walt vão produzir mercadoria no valor de U$ 90 milhões, recebendo em troca apenas U$ 3 milhões, ilustrando o conceito de mais-valia. Noutro, que eu considero uma pequena obra prima, Walt conversa com Hank sobre drogas. Walt diz que nos anos 30 bebidas alcoólicas eram ilegais, sendo que essa decisão do que é ou não permitido é sempre muito arbitrária. Hank fala que Walt não entende nada sobre o assunto e que as drogas devem ser proibidas sim, mas, no mesmo ato, acende seu charuto cubano, produto proibido nos EUA, confessando que o conseguiu de um agente do FBI para quem fez um “favorzinho”.

Sobre o documentário “13ª Emenda” (“13th”)


Muito bom esse documentário da Netflix “13ª Emenda” (“13th”). Assistam! 

Trata do racismo e da questão prisional nos EUA, país que tem 5% da população mundial, mas 25% dos presos de todo o globo. A 13ª Emenda é tipo a Lei Áurea dos EUA. E é interessantíssimo como a história lá foi a mesma daqui. Os negros eram formalmente livres, mas no fim das contas continuaram sem ter os mesmos direitos dos brancos, algo que se reflete até hoje. 

Lá, os negros são 6,5% da população, mas mais de 40% dos presos. A probabilidade de um branco ser preso é 1/17, a de um negro é 1/3. O encarceramento em massa vitima sobretudo os negros. E é muito bizarro ver como políticas públicas são feitas para manter a estrutura social de opressão às minorias, em especial os negros, incluindo a gestão privada empresarial dos presídios. A "guerra às drogas" também é um exemplo típico. 

Nos EUA também não é nada incomum a prisão arbitrária de jovens negros, mas é ainda pior porque como por aquelas bandas tudo é reduzido a dinheiro, eles vendem liberdade por meio de fianças, que os jovens negros simplesmente não têm como pagar, ficando presos por tempo indefinido sem direito a nada. Aliás, todo o sistema de Justiça deles é pensado para que os mais pobres se ferrem, pois eles não vão a julgamento, sendo coagidos a aceitar acordos com a promotoria que envolvem confessar crime que não cometeram para evitar o risco de pegar uma pena maior. Outro ponto impressionante é que uma vez preso, a ficha criminal nunca é limpa e essa pessoa vira praticamente um anti-cidadão. Se for negra, que já é estigmatizada, é a morte civil. E, pior ainda: um negócio extremamente lucrativo é empresas se instalarem em prisões para se utilizarem de trabalho gratuito (leia-se, escravo) dos presidiários. 

É esse país que diz defender os direitos humanos e sai pelo mundo invadindo países em nome da liberdade e da democracia. Ditadura é em Cuba. 

Terceirização: Piores Condições de Trabalho em 100 anos


Já li em vários lugares gente dizendo que as condições de trabalho após a terceirização serão "as piores desde a década de 40", quando Vargas aprovou a CLT. Na verdade, nas décadas de 10 e 20 do século passado os trabalhadores eram muito mais unidos do que hoje e os sindicatos bem mais atuantes, devido sobretudo à militância dos anarquistas europeus que aqui chegavam. Por isso, as condições de trabalho não eram tão ruins e inclusive nessa época surgiram várias leis de proteção ao trabalhador, como a lei de acidentes de trabalho (1919) e a lei de férias (1926). Agora, em 2017, o trabalhador na prática já não vai ter mais nem férias, nem proteção contra acidente de trabalho, nem atuação forte de sindicato e greves como naquela época. Perdeu-se tudo numa tacada só.
Então, para ser mais preciso, é melhor dizer que as condições de trabalho agora são as piores em 100 anos.