terça-feira, 18 de novembro de 2014

Vai Cair!

É sempre a mesma coisa. Eu me acho tranqüilo, até que o trem de pouso descola do chão. Quando sobe, muda tudo. Imediatamente me dou conta da besteira que fiz por não ter preferido qualquer meio terrestre de transporte, por mais longa que a viagem seja. E não consigo sossegar enquanto não explodir, cair ou, em último caso, aterrissar normalmente.

Totalmente cético, não tenho nada sobrenatural em que me apegar, e, por melhores que sejam as estatísticas, as explicações e a minha confiança nas leis da física, simplesmente não é possível achar normal que toneladas de metal voem tão rápido, e, pior, me levando junto. Não tem nada de normal nisso! Estamos numa altura acima do Everest e ninguém parece ligar. "Será que só eu aqui tenho amor à vida?", me pergunto.

Em viagem mais longa, tenho certeza, não há NENHUM tipo de tragédia que eu não tenha imaginado. Desde o choque com outra aeronave, até a turbina falhando, a asa quebrando, o combustível vazando, parafusos mal apertados se soltando, pouso na água com explosão, piloto com "mal súbito" ou suicida, looping mal executado, controlador de vôo preguiçoso, meteoros, infarte, crise de apendicite, e por aí vai.

Tento dormir para relaxar, mas o efeito é logicamente o oposto. Fecho os olhos e começo a desenhar em minha mente a trajetória em espiral da queda, a ouvir com nitidez o grito desesperado de todos os passageiros, a sentir o calor da turbina em chamas. Eu me convenço de que da próxima vez vou levar na bagagem de mão um paraquedas, muito mais útil que o assento flutuador.

Cada curva e cada microturbulência são, para mim, o prenúncio do fim, pois mostram que estamos sem controle e que em breve o piloto anunciará a tentativa de pouso de emergência numa planície qualquer, que procuro lá embaixo mas não encontro. Inspiro. Expiro. Enquanto isso, os outros passageiros estão como na sala de casa, lendo, assistindo, conversando, digitando, batucando. O inconformismo é maior que a inveja. "Será que só eu aqui tenho amor à vida?", dessa vez me dá vontade de gritar. Mas fico firme na minha inevitável e incansável auto-tortura silenciosa.

Mudanças mínimas no som das turbinas me fazem já ler o meu próprio atestado de óbito em cópia autenticada. Aliás, desconfio mais quando o barulho é pouco, porque algo tão grandioso quanto ter a vida por um fio não pode ser silencioso.

Durante toda a viagem relembro os roteiros de O Náufrago, Lost, Premonição. Lembro do World Trade Center, do Malasyan Airlines, do Fokker 100. Nem Dilma, nem Aécio: todos os pensamentos mais próximos a política que consigo ter são relacionados a Eduardo Campos. Música? Apenas ouço a voz de Raul Seixas cantando Dentadura Postiça. Eu praguejo contra Santos Dumont, Irmãos White, até Leonardo Da Vinci e todos que contribuíram para essa barbaridade.

As mãos doem de tanto apertar os plásticos da poltrona, o que por alguma razão causa um pequeníssimo conforto.

Finalmente, anos-luz depois, pousamos com perfeição e segurança. Apesar de não ter havido nenhum tipo de incidente, por menor que seja, me sinto um sobrevivente, orgulhoso. Com os pés no chão, penso no quanto viajar é bom e vejo nessa insanidade um preço pequeno a ser pago. Começo a pensar e programar a próxima vez.

Talvez por não acreditar nele, deus tenha pregado em mim uma peça: me deu muita vontade de sair para conhecer o mundo, mas transformou justamente o céu em meu inferno na Terra.

Individualismo programado

O último Globo Repórter, que tive a infelicidade de assistir, fez uma propaganda descarada do individualismo.

O programa se dedicou a mostrar diversos casos de pessoas que nasceram pobres e "venceram" após muito "trabalho duro", "fazendo a própria oportunidade". Uma delas sequer deixa os filhos a ajudarem porque quer "chegar lá" sozinha.

A mensagem é clara: o caminho correto é o cada um por si, não a solidariedade e a luta pela transformação e por direitos. Em suma, o oprimido deve se submeter à opressão e, melhor ainda, assumir a lógica do opressor.

Mas o mais grave é a mensagem implícita, de jogar nos pobres a culpa pela própria pobreza, "fracassados" que são, como se tudo fosse questão de vontade e de esforço. Convenientemente, como qualquer veículo da grande mídia, escondem qualquer análise crítica sobre o porquê do sistema socioeconômico ser tão excludente e fazer dessas exceções tão raras a ponto virarem notícia.

Poderiam aproveitar a oportunidade para educar as pessoas, não emburrecer e embrutecer ainda mais. Mas sem isso a perversidade extrema do nosso capitalismo não sobreviveria, e a própria mídia estaria em risco. Infelizmente, nenhuma novidade.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Racismo e reação desumana

A menina errou ao chamar o goleiro de macaco. Disso ninguém tem a menor dúvida. Mas é possível julgar uma pessoa por causa de uma única atitude, cometida no calor do momento e da torcida em um jogo intenso de futebol?

Uma reportagem do Terra mostrou que os vizinhos da menina todos gostavam dela, falam que ela é uma pessoa boa, dizendo que acham, inclusive, que se tratou apenas de uma molecagem típica de torcida organizada para provocar o adversário, e não uma atitude intencionalmente racista. Segundo dizem, ela já teve namorado negro e os parentes estão desesperados postando fotos dela cuidando voluntariamente de crianças negras. Ela é santa por isso? Não. Mas também não é um demônio por ter feito o que fez. Ela é só humana, que acerta e erra, como todos somos. E é exatamente disso que se tratam, aliás, os direitos humanos.

Ela vai pagar pelo que fez, e deve mesmo responder nos termos da lei perante a Justiça. Agora, é fato que a lei não inclui, como punição, o apedrejamento da casa dela, a perseguição e a execração pública que ela está sofrendo. A vida dela foi destruída. Desde o tal jogo ela se refugiou na casa de parentes e nunca mais voltou para a casa, ao que tudo indica, ainda está totalmente desnorteada. Isso é proporcional? Será que é possível, por um instante, colocarmo-nos não só na pele do ofendido, mas também na dessa moça? E se fosse uma amiga ou parente nossa que tivesse feito uma merda dessas? Impressiona a velocidade com que pessoas autodenominadas cristãs se esquecem do “quem nunca errou que atire a primeira pedra”.

“Ah, mas ela serviu de exemplo!” Exemplo, amigo, é a Justiça que tem que dar mostrando que a lei é efetivamente cumprida. E outra: acho que a punição do clube é muito mais efetiva do que ficar compartilhando mensagens de ódio.

Essa fúria coletiva, no intuito de afirmar a importância de não se cometer determinado erro, o racismo, acaba levando a diversos outros erros, como se uma coisa justificasse a outra. A soma de tudo isso acaba sendo zero. Exatamente para isso existe a lei penal, para evitar que o espírito de vingança dite as regras e destrua vidas, que se não são inocentes, não deixam em nenhum momento de ser... humanas!

De todo o modo, fico curioso para saber por que quando o Danilo Gentile faz suas piadas racistas, a comoção pública não é nem 10% da que essa moça gerou.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Tiozão reacionário e você: Tudo a ver

Sabe aquele tiozão que acompanha o noticiário apenas pela Globo, que tem certezas absolutas sobre tudo que envolve política, que adora lembrar de como as coisas eram “melhores” durante o “regime militar”, que reclama da corrupção dizendo que odeia tanto o PT como o PSDB (mas que até duas semanas amava Aécio Neves), que tem como principal argumento chamar Lula de “sem dedo analfabeto” e Dilma de “sapatão”, que é contra o Bolsa Família por “sustentar vagabundos”, que odeia os médicos cubanos, que grita para todos que “direitos humanos são só para defender bandidos”, que é totalmente contra qualquer tipo de cota ou reserva de vaga porque, segundo ele, as oportunidades são iguais para todos, que fala que a Petrobras está falida, que vê o Joaquim Barbosa como um deus, que tem ódio mortal do MST e dos sem teto, que abomina manifestações que atrapalhem o trânsito, que sempre é contra sindicalistas e grevistas? Sabe esse cara? Seja curioso e pergunte pra ele em quem ele vai votar.

Agora você, que é jovem, bem informado, que, sabendo da manipulação que a grande mídia faz, lê as notícias em várias fontes diferentes para verificar qual a versão mais confiável, que vê a ditadura militar como uma época sombria e terrível da nossa história, que entende a importância dos programas sociais e de políticas que priorizem a redução da desigualdade social, que compreende a importância de trazer médicos para o Brasil a fim de atender os mais pobres, que sabe a importância dos direitos humanos para a história da humanidade, que conhece as razões históricas que justificam as cotas, que sabe que a Petrobras dá lucros extraordinários e passa longe de estar em crise, que já se informou a respeito do despotismo tirânico de Joaquim Barbosa, que entende a importância dos movimentos sociais, das manifestações e das greves para a conquista de direitos, enfim, você que guarda dentro de si ideais de um mundo melhor, mais justo e solidário, você mesmo, jura por deus que não vê nada de minimamente estranho em fazer a mesma escolha política que aquele tiozão?

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

PORQUE NÃO VOTAR EM MARINA SILVA

Após a lamentável e trágica morte de Eduardo Campos, o cenário político-eleitoral mudou completamente e a ameaça à Dilma e à continuidade das políticas sociais iniciadas por Lula já não é mais tanto o Aécio Neves, que teve a candidatura enfraquecida, mas sim Marina Silva.

Muita gente passou agora a ver a Marina como a representante da mudança, uma messias, a salvadora da pátria que vai livrar todos dos males do PT, do PSDB e dos outros partidos. Mas será que ela difere muito do que há de pior nesses dois partidos, sobretudo no PSDB? É como se, caso eleita, a corrupção fosse acabar no Brasil. Marina é o maior engodo político dos últimos tempos, uma candidatura insossa mas que virou o “canto da sereia”, que não resiste a uma análise crítica um pouco mais aprofundada.

Na verdade, inicialmente, ver Marina crescer foi positivo, porque Aécio ficava ainda mais longe de ser eleito, o que é, em si, uma vitória tremenda para o país. Contudo, pesquisando um pouco sobre quem é realmente Marina Silva e quais são as suas intenções no governo, percebe-se que, na verdade, do ponto de vista econômico e social, ambos não se diferenciam em quase nada. Pode-se dizer que Marina é, hoje, um Aécio mais esverdeado. 

Marina foi do PT durante mais de uma década, depois foi para o PV e, por fim, tentou fundar um novo partido, mas não conseguiu por falta de apoio e assinaturas necessárias. O partido que ela queria formar era “sem ideologia”, “nem de esquerda, nem de direita”, voltado especialmente para quem “está cansado de política”, na mesma esteira do sucesso eleitoral de Tiririca. Aliás, o último Presidente que vendia essa ideia foi Collor. Mais fácil que politizar as pessoas para decidirem conscientemente é desqualificar toda a política e, fingindo estar fora do jogo, fazer o povo de idiota. Luiza Erundina, companheira atual de partido de Marina, disse que ela “emburrece o debate político”, e é isso mesmo que está acontecendo. Afinal, alguém viu alguma proposta de Marina? Ela limita-se a falar que é “a cara da mudança”, que vai fazer a “nova política”, mas proposta que é bom, nada. Ou alguém sabe efetivamente o que ela vai fazer pela educação, saúde, segurança, saneamento,  infra-estrutura, transporte e demais questões sociais?

No “quem dá mais” político, para não ficar fora da disputa presidencial, Marina filiou-se a um partido qualquer, o PSB de Eduardo Campos, com o qual não tem nenhuma afinidade. Desde a sua entrada no partido para concorrer como vice, entrou em atrito constantemente. Agora, o próprio partido não sabe mais o que fazer com ela, que pegou para si a legenda, desvirtuando o programa deles. Diverge em vários pontos do próprio vice, assim como divergia de Eduardo Campos. Por exemplo, Marina antes disse que não apoiaria Geraldo Alckmin (embora seu partido apoiasse), agora diz que espera governar com o apoio de José Serra, aquele que afirmou não ver ilicitude na formação de cartéis, e seu vice atual aparece pedindo voto para Alckmin na TV. Essa é a “nova política”, baseada no velho oportunismo. Não à toa alguns já abandonaram o barco. Ela é um vazio. Não tem propostas e as que tem são altamente incoerentes entre si.

Como disseram: “Alguém que saiu do PT, saiu do PV, não conseguiu fazer o jogo político pra fundar um partido, foi aceita em uma legenda alugada mas está quebrando o pau lá dentro... Eu teria como melhor amiga. Mas tenho dificuldade em querê-la como Presidenta.” Sendo esse chamariz de conflitos, com que apoio Marina vai governar? Que nunca saibamos a resposta.

No mais, ela está garantindo a todos que vai "recrutar" os melhores para compor sua equipe, os melhores do PT, do PSDB e de outros partidos. Se ela fosse mesmo capaz de fazer isso o teria feito em seu próprio partido, que não foi fundado exatamente por falta de apoio. Vive mencionando que vai “unir todos os brasileiros”, negando veementemente a luta de classes, como antes defendia. Quer dizer, esse discurso de “grande conciliadora acima do bem e do mal” é megalomaníaco e nitidamente enganoso.

Sobre a candidatura, já pende um problema sério relacionado ao avião de Eduardo Campos ter sido comprado por empresas fantasmas, com suspeita de financiamento por caixa-dois da campanha. Ela disse no Jornal Nacional que sabia da irregularidade e que o avião teria sido emprestado, o que foi rapidamente desmentido, já que não havia empréstimo. Absurdamente, o pessoal do partido dela disse inicialmente que os documentos que comprovariam a regularidade da compra estavam dentro do avião (!).Não é o argumento perfeito para esconder qualquer coisa? A “nova política”, pelo jeito, eleva o cinismo a níveis superiores aos da “velha política”. Além disso, reportagem do Estadão mostrou que Campos, a quem Marina se aliou, enquanto era governador de Pernambuco havia favorecido o dono do helicóptero.

Para quem não se lembra, Marina fez uma gestão medíocre no Ministério do Meio Ambiente. Os dados são conflitantes, mas durante a sua gestão, ao que tudo indica, a Amazônia teve recordes sucessivos de desmatamento, o que só foi corrigido com a sua substituição pelo Ministro Carlos Minc. Falando em má-gestão, por que será que Marina ficou em terceiro lugar na última eleição presidencial justamente em seu berço eleitoral, o Acre? Quem conhece mais de perto parece não recomendar.

Sobre o fato, em si, dela ser evangélica, não há nenhum problema. Mesmo. O problema, na verdade, começa quando ela mistura política e religião, como se o estado brasileiro não fosse laico. Ela é, por exemplo, contra a união civil entre pessoas do mesmo sexo e contra estudos com células tronco, mas a favor da isenção tributária às igrejas e templos religiosos. Aliás, embora ela hoje negue, já se pronunciou favoravelmente ao ensino do criacionismo nas escolas, ao lado do evolucionismo, como se a versão bíblica da origem do mundo e da vida tivesse algum tipo de embasamento científico minimamente comparável ao da teoria darwiniana, que até o Vaticano hoje em dia aceita. Ela chegou até a defender o racista, machista e homofóbico Marco Feliciano, enquanto presidente da comissão de direitos humanos, dizendo que ele estava sendo atacado apenas por ser evangélico, num vitimismo muito bem planejado para comover os desatentos.

Em outras palavras, em relação aos costumes e às leis moralistas que temos, se alguém deseja algum avanço, pode esquecer. Ela sequer discutirá algum dia pautas progressistas como, para citar dois exemplos, a legalização da interrupção voluntária da gravidez ou da maconha ou qualquer outra droga hoje proibida. O cargo político mais importante do País não pode ser ocupado por alguém que coloca a sua convicção religiosa pessoal acima do interesse público.

Ainda: é muito difícil dar voto a quem, pouco depois da morte de seu companheiro de chapa, afirma que foi salva por “providência divina”... Meio estranho a providência não ter simplesmente salvado Eduardo Campos e ela da morte, e não apenas ela. Apesar de entender a ambigüidade da declaração, contar com a providência divina não é um perfil especialmente adequado para um Chefe de Estado e de Governo. E quem acompanha o noticiário sabe que ela não perde a oportunidade de aproveitar-se da morte de seu companheiro como isca de voto. 

Como se não bastasse, reiteradas vezes ela já mencionou que é a favor a legislar sobre direitos humanos via plebiscito. Isso seria um completo desastre do ponto de vista da proteção às minorias e aos desassistidos. No Brasil, infelizmente, pouquíssima gente sabe o que são realmente os direitos humanos, seguramente a maior conquista da humanidade de todos os tempos, qual a sua origem e importância para a paz social. Levar isso a consulta popular é jogar os tudo isso no lixo, porque a noção que as pessoas têm sobre esses direitos é aquela fascista trazida pela grande mídia, de que "direitos humanos só protege bandido".  Uma candidata que nega dessa maneira os direitos humanos e a dignidade humana não merece o voto de ninguém. Interessante é que ela não quer fazer consulta popular a respeito da isenção de impostos para igrejas...

Recentemente ela disse que pretende adotar a "autonomia" do Banco Central. Parece uma declaração inofensiva, mas, traduzindo, ela assumiu de vez sua ideologia NEOLIBERAL, uma vez que bancos centrais autônomos são desvinculados da política do governo, mas, em contrapartida, vinculados às vontades das grandes empresas, dos banqueiros, dos bilionários, do mercado, do capital. Ou seja, é uma autonomia em relação ao povo; mas quem decide sobre a política econômica serão as elites, às quais Marina declarou seu incondicional amor no debate da Band (além de ter dito que o Brasil precisa de mais elite e que Chico Mendes, que deve ter virado cambalhotas no túmulo, era parte da elite).

Sua coordenadora de campanha é uma herdeira e sócia do Banco Itaú, Neca Setúbal. Justo Marina, que antes dizia que bancos eram “vorazes por lucro” e “não tinham nenhum compromisso com o povo”. E precisava ser justo do Itaú, que deve R$ 18 bi (mais de 4 vezes o gasto público federal com arenas da Copa) em impostos? Que forte interesse uma banqueira tem nas eleições, senão o de garantir que seu banco vai lucrar ainda mais, às custas do trabalho do povo? Como alguém escreveu, os jovens que foram às ruas em junho de 2013 contra os bancos vão votar na candidatura do Itaú?

Para completar, ela tem em sua equipe econômica políticos neoliberais declarados, como André Lara Resende, que sugeriu ao Collor que confiscasse a poupança popular e foi ligado ao PSDB na época de FHC, tendo, inclusive, participação nas privatizações, e Eduardo Giannetti da Fonseca. Este último disse recentemente que alunos de universidades públicas devem pagar mensalidades (o que indica a sanha de privatização) e que a Unicamp é fruto da ditadura, unicamente porque a Faculdade de Economia segue, em regra, uma escola de pensamento econômico diferente do (neo)liberalismo.

Para quem não sabe, neoliberalismo econômico é a doutrina que FHC seguia, do Estado Mínimo, que resultou em desemprego, inflação alta, juros altos, leis trabalhistas e direitos previdenciários revogados, salários reduzidos, empresas falindo e formação de monopólios, privatizações desastrosas, poucos e desprezíveis programas sociais. Por isso é perfeitamente possível dizer que Marina muito pouco se diferencia de Aécio Neves nesse ponto, que na verdade talvez seja o principal a ser levado em conta numa escolha política.

Por fim, e essa questão realmente me intriga: como é possível uma candidata que pretende impedir que o Estado intervenha na economia se dizer a favor da ecologia e da tão repetida “sustentabilidade”, se apenas o Estado pode adotar políticas que impeçam as empresas de destruir e degradar o meio-ambiente? As empresas, por si mesmas, vão deixar de poluir e respeitar a natureza? Isso ela não explicou, mas "neoliberalismo ecológico" é um exemplo de contradição em termos, um paradoxo, um oxímoro. Aliás, Marina é contra os transgênicos, seu vice, é a favor, e o interlocutor direto dela com o agronegócio, João Paulo Capobianco, disse recentemente, nessas palavras: "não somos contra, nem a favor aos transgênicos". Bela posição. Pelo menos combina com o “nem direita, nem esquerda”.

Sim, “nem contra, nem a favor”, “nem direita, nem esquerda”, “nem pra trás, muito menos pra frente”, apenas o poder pelo poder, a “boa” e velha política, pintada de verde para parecer nova, mas passada de podre por dentro.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Na Moral e Feminismo

Ontem o "Na Moral" foi sobre machismo. Até que foi interessante, mas acho que deveriam escolher melhor as pessoas que vão lá defender ideias. Digo, o lado feminista estava extremamente bem representado, mas o lado contrário estava um fracasso.

Havia uma autodenominada "filósofa", contrária ao movimento feminista, dizendo que as mulheres não devem nada ao feminismo, pois, segundo ela, o próprio avanço da democracia já permite a conquista de direitos pelas mulheres. É necessário ser filósofo para ver nesse argumento um engodo?

Ora, em Atenas havia "democracia" e as mulheres passavam longe de ter alguma voz. Hoje, a democracia já avançou bastante e ainda assim as mulheres são vítimas de violência doméstica, são assediadas na rua, ganham menos que o homem, não podem se vestir como bem entendem sem serem julgadas, etc. Inclusive, basta lembrar que se deu no Canadá, uma sólida democracia, o episódio do policial que reclamou das roupas das mulheres, dizendo que elas não deveriam se vestir como vadias, gerando protestos e desencadeando a famosa Marcha das Vadias mundo afora.

Quer dizer, o próprio conceito do que seja democracia é mutável no tempo e no espaço, e a história mostra que apenas a luta organizada dos oprimidos, tal como fazem as militantes feministas, gera a conquista de direitos, o que no fundo se traduz na distribuição do poder na sociedade - poder este que, no capitalismo desregulado, tende a se concentrar exclusivamente nas mãos dos mais ricos e conservadores.

Ainda, a "filósofa" afirmou que a repercussão negativa que recai sobre as mulheres vítimas de revanche pornô (divulgação pelo ex-namorado de vídeos de sexo do casal) não tem nada a ver com machismo, pois poderia existir o caso de homem ser filmado brochando, o que seria, também, igualmente vergonhoso. Porém, na verdade essa idéia acaba confirmando a tese feminista. Ora, o homem precisa brochar para ser estigmatizado (essa supervalorização da "potência" sexual é também uma forma de machismo); já para a mulher, só o fato de ter feito sexo já é motivo de vergonha, afinal, as mulheres são criadas, conforme a Bíblia, para se tornarem donzelas, subservientes aos homens (1 Coríntios 11:3; Efésios 5:23).

Se são nessa linha os argumentos antifeministas, não há dúvidas de que o movimento feminista é, sim, de suma importância para a efetivação da igualdade entre os sexos e, por consequência, para o fortalecimento da democracia.

E convenhamos, homens: brochante mesmo é mulher antifeminista.

sábado, 12 de julho de 2014

O “imagina na Copa” ficou só na imaginação.


Disseram que seria um fracasso, que iríamos passar vergonha, que os estádios não ficariam prontos, que haveria insegurança, arrastões e tumultos nas ruas, que os aeroportos não funcionariam e que teria caos aéreo, que os atletas ficariam mal instalados, que uma epidemia de dengue iria estragar a festa, que o trânsito iria parar as cidades e prejudicar os jogos, que haveria atentados do PCC, dentre outras previsões sombrias que foram sendo desmentidas com o tempo. O “imagina na Copa” ficou mesmo só na imaginação.

Problemas pré-Copa de fato existiram. Houve desalojamentos, muitos sem a devida assistência às famílias por parte dos governos, e mortes de operários das obras, causadas por negligência, para os quais de fato “não teve Copa”. E não se esqueça de uma espécie de “estado de exceção” imposto pela autoritária FIFA, e aceito pelo governo, como condição de realização do evento. Que seja repensada a forma anti-democrática de realização desse tipo de evento.

Tirando esses pesares, que não devem ser esquecidos, o que se viu foi um evento que, salvo um ou outro problema de logística normal pela sua magnitude, empolgou e arrancou elogios do mundo todo. Nosso povo, essa gente bronzeada, soube mostrar seu valor. “Os brasileiros são o conjunto de almas mais acolhedoras com que eu já me deparei”, disse o jornalista do Wall Street Journal. Quem veio quer voltar. Quem podia e não veio, tal como quem estava aqui e não aproveitou, arrepende-se até o último fio de cabelo.

A eliminação traumática da seleção brasileira fica como um detalhe triste, desses que nos farão perguntar "por que" ainda por um bom tempo. Mas futebol é esporte, e esporte tem dessas. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. (Aliás, antes tomar essas duas surras e ficar entre as quatro melhores seleções do mundo do que fazer uma campanha igual à da Espanha ou de Portugal, ambas que também tomaram goleadas e sequer passaram para a segunda fase.)

A maioria das coisas que realmente deram errado foram relacionadas à FIFA, desde a fraca apresentação de abertura, os horários de alguns jogos com sol a pino, as porcarias de árbitros, a limitação aos ingressos populares, até a máfia dos ingressos clandestinos, que acabou desbaratada e presa. A torcida xingou a Presidenta e chegou a vaiar o hino do time adversário, mas, no geral, torceu como se deve. As polícias, truculentas e arbitrárias, mais uma vez deixaram claro que não sabem lidar com manifestantes.

O que se passou diante dos nossos olhos foi mesmo a Copa das Copas, dentro e fora de campo. Que não percamos a oportunidade de refletir sobre a exclusão social evidenciada por esse mega evento, inerente a qualquer empreendimento capitalista. Mas também sejamos justos: Se desse tudo errado, como torciam os pessimistas, todos iriam afoitos colocar a culpa no Lula e na Dilma; como deu tudo certo, que eles dividam, sim, com nosso povo, os louros e méritos dessa vitória que trouxeram para o país, mostrando a todos que somos competentes e agimos como gente grande quando há, além do nosso gingado característico, planejamento, organização e empenho. O país está mais rico agora, não só pelas dezenas de bilhões de reais que a Copa gerou, mas porque nos colocamos à prova e passamos no teste com louvor.


Imagina nas Olimpíadas!