sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Na Moral e Feminismo

Ontem o "Na Moral" foi sobre machismo. Até que foi interessante, mas acho que deveriam escolher melhor as pessoas que vão lá defender ideias. Digo, o lado feminista estava extremamente bem representado, mas o lado contrário estava um fracasso.

Havia uma autodenominada "filósofa", contrária ao movimento feminista, dizendo que as mulheres não devem nada ao feminismo, pois, segundo ela, o próprio avanço da democracia já permite a conquista de direitos pelas mulheres. É necessário ser filósofo para ver nesse argumento um engodo?

Ora, em Atenas havia "democracia" e as mulheres passavam longe de ter alguma voz. Hoje, a democracia já avançou bastante e ainda assim as mulheres são vítimas de violência doméstica, são assediadas na rua, ganham menos que o homem, não podem se vestir como bem entendem sem serem julgadas, etc. Inclusive, basta lembrar que se deu no Canadá, uma sólida democracia, o episódio do policial que reclamou das roupas das mulheres, dizendo que elas não deveriam se vestir como vadias, gerando protestos e desencadeando a famosa Marcha das Vadias mundo afora.

Quer dizer, o próprio conceito do que seja democracia é mutável no tempo e no espaço, e a história mostra que apenas a luta organizada dos oprimidos, tal como fazem as militantes feministas, gera a conquista de direitos, o que no fundo se traduz na distribuição do poder na sociedade - poder este que, no capitalismo desregulado, tende a se concentrar exclusivamente nas mãos dos mais ricos e conservadores.

Ainda, a "filósofa" afirmou que a repercussão negativa que recai sobre as mulheres vítimas de revanche pornô (divulgação pelo ex-namorado de vídeos de sexo do casal) não tem nada a ver com machismo, pois poderia existir o caso de homem ser filmado brochando, o que seria, também, igualmente vergonhoso. Porém, na verdade essa idéia acaba confirmando a tese feminista. Ora, o homem precisa brochar para ser estigmatizado (essa supervalorização da "potência" sexual é também uma forma de machismo); já para a mulher, só o fato de ter feito sexo já é motivo de vergonha, afinal, as mulheres são criadas, conforme a Bíblia, para se tornarem donzelas, subservientes aos homens (1 Coríntios 11:3; Efésios 5:23).

Se são nessa linha os argumentos antifeministas, não há dúvidas de que o movimento feminista é, sim, de suma importância para a efetivação da igualdade entre os sexos e, por consequência, para o fortalecimento da democracia.

E convenhamos, homens: brochante mesmo é mulher antifeminista.

sábado, 12 de julho de 2014

O “imagina na Copa” ficou só na imaginação.


Disseram que seria um fracasso, que iríamos passar vergonha, que os estádios não ficariam prontos, que haveria insegurança, arrastões e tumultos nas ruas, que os aeroportos não funcionariam e que teria caos aéreo, que os atletas ficariam mal instalados, que uma epidemia de dengue iria estragar a festa, que o trânsito iria parar as cidades e prejudicar os jogos, que haveria atentados do PCC, dentre outras previsões sombrias que foram sendo desmentidas com o tempo. O “imagina na Copa” ficou mesmo só na imaginação.

Problemas pré-Copa de fato existiram. Houve desalojamentos, muitos sem a devida assistência às famílias por parte dos governos, e mortes de operários das obras, causadas por negligência, para os quais de fato “não teve Copa”. E não se esqueça de uma espécie de “estado de exceção” imposto pela autoritária FIFA, e aceito pelo governo, como condição de realização do evento. Que seja repensada a forma anti-democrática de realização desse tipo de evento.

Tirando esses pesares, que não devem ser esquecidos, o que se viu foi um evento que, salvo um ou outro problema de logística normal pela sua magnitude, empolgou e arrancou elogios do mundo todo. Nosso povo, essa gente bronzeada, soube mostrar seu valor. “Os brasileiros são o conjunto de almas mais acolhedoras com que eu já me deparei”, disse o jornalista do Wall Street Journal. Quem veio quer voltar. Quem podia e não veio, tal como quem estava aqui e não aproveitou, arrepende-se até o último fio de cabelo.

A eliminação traumática da seleção brasileira fica como um detalhe triste, desses que nos farão perguntar "por que" ainda por um bom tempo. Mas futebol é esporte, e esporte tem dessas. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. (Aliás, antes tomar essas duas surras e ficar entre as quatro melhores seleções do mundo do que fazer uma campanha igual à da Espanha ou de Portugal, ambas que também tomaram goleadas e sequer passaram para a segunda fase.)

A maioria das coisas que realmente deram errado foram relacionadas à FIFA, desde a fraca apresentação de abertura, os horários de alguns jogos com sol a pino, as porcarias de árbitros, a limitação aos ingressos populares, até a máfia dos ingressos clandestinos, que acabou desbaratada e presa. A torcida xingou a Presidenta e chegou a vaiar o hino do time adversário, mas, no geral, torceu como se deve. As polícias, truculentas e arbitrárias, mais uma vez deixaram claro que não sabem lidar com manifestantes.

O que se passou diante dos nossos olhos foi mesmo a Copa das Copas, dentro e fora de campo. Que não percamos a oportunidade de refletir sobre a exclusão social evidenciada por esse mega evento, inerente a qualquer empreendimento capitalista. Mas também sejamos justos: Se desse tudo errado, como torciam os pessimistas, todos iriam afoitos colocar a culpa no Lula e na Dilma; como deu tudo certo, que eles dividam, sim, com nosso povo, os louros e méritos dessa vitória que trouxeram para o país, mostrando a todos que somos competentes e agimos como gente grande quando há, além do nosso gingado característico, planejamento, organização e empenho. O país está mais rico agora, não só pelas dezenas de bilhões de reais que a Copa gerou, mas porque nos colocamos à prova e passamos no teste com louvor.


Imagina nas Olimpíadas!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Não ser um idiota útil cansa


Não ser um idiota útil cansa demais. Às vezes eu sinto alguma inveja dessas pessoas que simplesmente reproduzem qualquer discurso de ódio sem se preocupar com a fonte, sem averiguar a veracidade da informação, sem refletir sobre qual o interesse envolvido na disseminação daquela informação. É só acreditar e repassar, sem nenhuma preocupação com honestidade intelectual nem nada disso. Nenhum esforço. Mas eu não conseguiria ficar bem comigo mesmo se procedesse dessa forma. Todavia, infelizmente, vejo que faço parte de uma minoria.

É cada vez mais frustrante tentar conversar sobre política ou sobre qualquer questão social por aqui. O debate é muito despolitizado, a educação política e a noção de cidadania que se tem é absurdamente rasteira. Chega a ser um crime contra o nosso povo o nível de ignorância que a média da população apresenta a respeito de questões políticas, e não estou falando apenas dos mais pobres e sem estudo, que de fato não têm grandes oportunidades de conhecer bem sobre esses assuntos.

O que eu vejo acontecer muito é que temos uma pessoa que olha o mundo e vê que há muita coisa errada, políticos corruptos, pessoas desonestas por toda a parte, crimes acontecendo a todo instante, gente mal educada e etc. Essa pessoa enxerga isso tudo e fica revoltada com a situação, querendo mudanças. Então, ela, bombardeada pela alienação torrencial da mídia, que se soma à falta de educação crítica e crônica, começa a colocar a culpa de todos os males no que a mídia escolheu pra ela como sendo os inimigos: sindicatos, grevistas, manifestantes, "maconheiros" da USP, sem terra, sem teto, direitos humanos, estatuto da criança e do adolescente, direitos trabalhistas, leis e garantias penais, drogas, índios, ambientalistas, militantes dos movimentos negros, LGBT, feministas, ateus, e etc. 

Ao mesmo tempo, começa a achar que o Bolsonaro, a Sheherazade e o Joaquim Barbosa é que são os heróis, por supostamente falarem “corajosamente” o que pensam e “quererem mudar” alguma coisa, sem se dar conta de que na verdade essas figuras são representantes de tudo o que há de mais covarde e atrasado, sendo os que puxam o Brasil para a "vanguarda" do atraso, militando, na verdade, contra uma sociedade verdadeiramente justa e democrática.

Sei que há pessoas que são conservadoras instruídas e convictas, que não vêem qualquer problema na concentração de renda e na desigualdade social, que odeiam qualquer ato de rebeldia contra os desmandos do capitalismo desregulado e selvagem, que acham que pobre é pobre sempre porque se acomoda, que a ditadura militar foi excelente, que direitos trabalhistas e previdenciários devem ser abolidos, e etc. O problema não são esses, até porque eles são minoria, numericamente não causam qualquer temor de retrocesso. O real problema, na verdade, são esses que por falta de educação crítica, por ignorância ou simplesmente por preguiça de pesquisar e pensar mais detidamente sobre os assuntos políticos, limitam-se apenas a, como robôs, reproduzir um discurso fácil e maniqueísta que já lhes vem pronto via Jornal Nacional, Datena, TV Revolta, Veja, e etc., como verdadeiros idiotas úteis.

Sério, quantas pessoas que se dizem contra os direitos humanos sabem, mesmo que por cima, o que de fato sejam direitos humanos, como surgiram e pra que servem? Quantos dos que criticam o Estatuto da Criança e do Adolescente já leram ao menos um capítulo dessa lei? Quantos que acham que o socialismo é uma espécie de encarnação do mal sabem ao menos definir o que é socialismo, conforme preconizado por Marx? Quantos dos que falam que o Bolsa Família gera vagabundos já leu alguma estatística sobre os beneficiários, sobre o número deles que abandonou voluntariamente o benefício, e sobre a revolução social que o benefício, que é exemplo mundial no combate à pobreza, tem causado nas regiões mais pobres do país? Quantos dos que querem jogar os condenados do “mensalão” na fogueira, de fato leram algum especialista sério falando sobre as condenações (porque o “mensalão” do PSDB nem sequer sabe que existe)? Quantos se dizem contra a Copa (não que o modo como foi organizada não mereça críticas) sem ter nem ideia do porquê, acreditando nas inúmeras falácias que se divulgam por aí sobre o evento? Quantos falam que Cuba é uma ditadura sem nunca ter lido nada a respeito da política na ilha?

O que pouca gente parece ver é o seguinte: quem detém o monopólio da informação e da opinião pública são empresas privadas poderosas, que fazem de tudo para não permitir, por si só, que a grande massa tenha acesso a informações e opiniões que lhes contrarie os interesses. Por isso dá muito mais trabalho ter pensamento crítico de verdade, não um pensamento "crítico" já pronto, imbecilizado, feito pra vender e pra manter as coisas exatamente como estão, como o que diz Bolsonaro, Sheherazade, Datena e companhia.

Isso de certa forma explica por que muita gente não gosta de acadêmicos das ciências humanas (embora muitos deles também se formaram para defender interesses dos poderosos), porque eles, em geral, são formados exatamente para fazer o que os demais têm preguiça, que é olhar para o mundo, refletir de forma densa sobre ele e propor soluções para os problemas (exceto os formados em Direito, que são na maioria das vezes formados justamente para manter as coisas como estão). 

Afinal, ninguém contraria apaixonadamente o parecer de um oftalmologista sobre um problema de visão sem antes estudar minimamente o assunto, mas, de outro lado, discute cada afirmação dita por um sociológico ou um especialista em direitos humanos sobre algum problema social, mesmo sem sequer saber o que foi dito. É sempre mais fácil agir como um colunista da Veja, que nunca fala coisa com coisa, do que pesquisar e refletir. 

Não estou dizendo que todos devemos ser especializados em todos os assuntos, mas seria de bom tom ao menos conferir a informação e pesquisar sobre o que se está falando antes de soltar qualquer besteira em caixa alta. Ok, concordo que algumas vezes a pessoa é limitada ou mentirosa mesmo, mas na maioria delas é preguiça pura. Em boa medida, isso é reflexo da política educacional da ditadura, que excluiu o senso crítico da escola, resultando em sucessivas gerações de zumbis repetidores raivosos. É triste... E cansa. 

Enfim, se você tem uma revolta dentro de si e quer alguma mudança, a atitude mais revolucionária que você pode fazer é se informar bem, pesquisar e, refletir, para só depois tomar partido.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Marxismo cultural


Esse marxismo cultural é que está acabando com o Brasil mesmo!

Quantas pessoas, de tanto assistirem aos jornais e novelas da Globo, da Record e do SBT diariamente, por horas a fio, acabam se revoltando com a exploração extrema do capital, pegando em armas e quebrando bancos para promover a revolução comunista?

Quantos espectadores que acabaram de assistir ao Homem Aranha, ao Homem de Ferro e ao Capitão América passam a falar apenas em mais valia, materialismo histórico e a pregar a emancipação dos trabalhadores?

Quantos milhões de pacientes não lêem nos consultórios as edições semanais da Veja, da Caras e da Boa Forma e imediatamente compram passagem para Cuba a fim de treinar táticas de guerrilha?

Quantos, após ler Paulo Coelho, Dan Brown e Augusto Cury e verem exposições do Romero Brito, não foram a Brasília tentar repetir, desta vez com sucesso, uma nova Comuna de Paris?

Quantas pessoas não vão ao teatro assistir a um stad up do Danilo Gentili ou a uma peça do Arnaldo Jabor ou do Jô Soares e, na volta, acabam se vendo obrigados a passar comprar uma camiseta do Che Guevara e a se filiar ao partido comunista?

Quanta gente, de tanto ouvir as músicas do Michel Teló, do Thiaguinho, ou do Mc Guimê, verdadeiros gritos de guerra bolcheviques, não se sentem no dever de, com outros trabalhadores, impor à força a socialização dos meios de produção?

Quantas pessoas não saem de casa e se vêem inundadas em meio a propagandas e símbolos do comunismo soviético, como a Coca Cola, o Mc Donald’s e a Starbucks, em uma conclamação direta ao leninismo?

Quantas pessoas não têm como ídolos e exemplos de vida Silvio Santos, Antônio Ermírio de Moraes e Roberto Justus, conhecidos agitadores subversivos ao sistema de dominação econômica e social?

A resposta a todas essas perguntas é, invariavelmente: milhões e milhões, quiçá bilhões, ou mesmo trilhões, de pessoas.

É, a direita precisa reagir com urgência, pois a esquerda possui mesmo o monopólio cultural de nosso tempo. Mais um pouco e estarão conseguindo construir uma sociedade mais justa e igualitária, o que é inaceitável.

Conservadores do mundo, uni-vos!

terça-feira, 29 de abril de 2014

Estopim da Nova Consciência


Eu sou filho da classe média, e, como tal, cresci com muitos preconceitos infundados em relação aos mais pobres, preconceitos esses cuidadosamente instalados em mim por todas as estruturas sociais, desde a mídia, a igreja, até a escola.

Deu trabalho pra me libertar disso tudo, se é que inconscientemente ainda não restam alguns vestígios. Fato é que chegou um determinado momento em que eu percebi que a "neutralidade" que eu tentava manter era, na verdade, uma posição covarde, extremamente útil a um dos lados da batalha, sempre o lado mais forte, que estava ganhando de lavada. Portanto, não tinha nada de “neutro”. 

Precisou de muita leitura, muito estudo, muitas conversas, muitas discussões, muita reflexão pra eu definitivamente tomar uma posição. Como diz Renato Russo:

“Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser”

Uma das coisas que eu não entendia dos mais pobres era por que muitos deles não gostavam de polícia. Pra mim, que era branco, pertencia à classe média e ouvia rock (e não funk), a polícia estava lá para nos proteger dos bandidos, e se a pessoa não gosta dos policias, só podia ser bandida. Mas eu via pessoas próximas, muito boas, que odiavam a polícia, especialmente a PM. Por que? 

Essa questão, eu vejo hoje, é de suma importância, porque entendendo esse ponto de partida se consegue compreender inúmeras questões sociais. Pelo menos foi ela quem despertou em mim a curiosidade pra saber o que de fato acontecia, indo além do que as mídias mostram de forma extremamente tendenciosa, condizente com seu projeto ideológico de dominação.

Achei o comentário abaixo perdido numa notícia do Estadão, de um morador de favela sobre o assassinato do dançarino da Globo, que resume tudo: 

"Sera que vcs classe média alta ainda não perceberam que quem mora na favela não tem medo de traficante, pois os traficantes só mexem com quem mexe com eles, aki o nosso medo é contra esses malditos policias ai que invade nossas casas e bota terror em todo mundo aki só porque é favela, o que eles fazem com nóis aki é tipo abaixa a cabeça e fica quieto e deixa nóis fazer o que quiser, aki na favela toda a noite trancamos nossas portas e fechamos nossas janelas não por causa de ladrão ou traficante, aki o medo é outro nóis tracamos tudo pra não correr o risco de acordar com um fúzil ou uma ponto 40 apontado na cara e levando esculacho na frente do filho e da esposa, mesmo sem ter uma passagem seqer, mesmo vc sendo trabalhador, eles não querem saber de nada disso, a única coisa que importa pra eles é que vc mora na favela e por isso vc não presta, essa é a nossa realidade aki."

Esse era o único comentário que não defendia a polícia e as suas execuções sumárias ao qual nenhum conservador raivoso respondeu, talvez por saberem, pelo menos inconscientemente, que o texto só diz a verdade, muito mais verdades que muito texto de articulistas, sociólogos, antropólogos, e demais "especialistas".

terça-feira, 15 de abril de 2014

Conversão à direita

Dia desses vi alguém dizer que o mundo é assim mesmo, cruel, injusto, desigual, e que devemos aceitar essa realidade e nos esforçar para vencer na vida.

Pensei a respeito e concluí que essa pessoa tem toda razão. Genial!

Antes eu achava injusto que existissem pessoas que não têm onde morar e nem o que comer, enquanto outras velejavam em seus iates e faziam coleção de Ferraris. Hoje vejo o quão idiota eu era. É tudo questão de esforço pessoal! O sistema é maravilhoso porque proporciona oportunidades iguais para todos subirem e vencerem na vida, e por “vencer na vida” entenda-se “ganhar muito dinheiro”.

Assim, quem nasce em uma favela, filho de empregada doméstica e de porteiro semi-analfabetos, tem a mesmíssima chance de se tornar presidente de uma empresa multinacional do que o filho de um executivo milionário. Tudo é questão de trabalho duro. Vi que, no mundo, 85 pessoas detêm mais riqueza do que 3,5 bilhões de pessoas e, meu deus!, como eu admiro esses 85, porque eles se esforçaram e trabalharam mais do que metade da humanidade, um exército de vagabundos, dentre os quais eu me incluo - por enquanto, pois estou me esforçando para ser o 86º!

E concluí isso porque conheci casos de gente que nasceu bem pobre e tornou-se muito rica. Acontece isso com uma pessoa em um milhão, mas pra mim já basta. É só ignorar 999.999 casos e pegar aquele único de exemplo e, pronto!, está “provado” que o sistema funciona e é bom pra todo mundo!

Por esse mesmo raciocínio, concluí que a escravidão era excelente, pois a história mostra que alguns escravos conseguiram se libertar e virar, eles mesmos, proprietários de escravos, ou seja, só continuava escravizado quem quisesse! Aliás, seguindo nesse pensamento, não existiu holocausto na Alemanha Nazista, pois houve casos de judeus e negros que conseguiram fugir e acabaram sobrevivendo, o que mostra que só morreu quem quis, comprovando que aquele regime não era cruel. Da mesma maneira, vendo reportagens sobre violência sexual percebi que algumas mulheres conseguiram reagir e se livrar de estupros, donde concluí que mulher só é estuprada quando quer, por “sem-vergonhice” mesmo, uma vez que se quisesse teria evitado a conjunção carnal.

Enfim, achar um exemplo de “superação” e com isso julgar todas as outras vítimas de determinada injustiça é sempre a melhor saída para negar a própria injustiça! O injusto vira justo num passe de mágica. Como não pensei nisso antes? Maldito petralha comunista esquerdopata que eu era!

Afinal, quantos peões de fábrica a gente não vê por aí cotidianamente comprando a fábrica onde trabalha e ficando mais rico que o próprio patrão? (Pausa reflexiva) Bom, sinceramente não estou lembrando, no momento, de nenhum caso (Walter White não vale), mas deve existir algum... Cortadores de cana, por exemplo, são todos preguiçosos, não trabalham como deveriam, já que se pegassem no batente direitinho seriam bilionários; já o Eike Baptista, esse sim é trabalhador, pois se esforçou arduamente para assinar a papelada da herança do patrimônio que o seu papai construiu aliando-se à ditadura militar, e seu filho Thor, coitado, terá o mesmo destino.

Doravante, acho absurdo o pensamento de quem discorda de mim, geralmente esses que se revoltam contra a injustiça que acomete os outros e se juntam a eles na luta para que as coisas mudem. Quem presencia uma injustiça, penso eu, tem que se calar - como diz o meu novo deputado favorito Jair Bolsonaro – e não querer ajudar. Do contrário, se estará violando o direito sagrado que o opressor tem de continuar oprimindo o mais fraco. Aí já é vandalismo!

E quando argumentam comigo, dizendo que sou insensível, eu imediatamente mudo de assunto e parto para o ataque pessoal, de duas maneiras:
(i)     perguntando por que a pessoa tem iPhone, já que o capitalismo é tão ruim, mas para isso cinicamente finjo que desconheço os fatos da internet que o celular usa ser proveniente de entidade estatal, e não do livre-mercado, e dos satélites, também usados pelo smartphone, terem sido inventados pelos comunistas; e
(ii)    perguntando por que a pessoa não doa sua casa e seus bens para os pobres, afinal, o que conta não é a luta coletiva feita de modos efetivos para resolver definitivamente o problema, e o fardo de todos esses séculos de injustiça é exclusivamente de quem se propõe a ajudar, ou seja, quem não faz voto de pobreza tem o dever de achar o capitalismo justo e maravilhoso, e nesse ponto, dissimuladamente finjo não saber que a luta dos esquerdistas é pela socialização dos bens de produção, e não dos bens pessoais.
Mas tudo bem, pelo menos desvio o assunto, pois meus argumentos pró-“trabalho duro”, por alguma razão que ainda desconheço, não costumam convencer muitas pessoas, sobretudo as mais letradas, talvez por não estarem ainda preparadas para minhas revelações tão perspicazes.

Agora me dêem licença que eu vou comentar notícias nos grandes portais, em caixa alta, xingando os miseráveis, falando mal dos direitos humanos e pondo a culpa de todos os males do país, de Cabral até hoje, no PT.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O real problema

Apesar das divergências, eu respeito os liberais convictos, que acreditam que o livre-mercado é o ideal de modelo econômico a ser adotado para se chegar à justiça social. Essa diferença de meios para se atingir um ideal é perfeitamente compreensível. A meu ver, o problema não são eles.

O problema são os que acham:
- que o bolsa família é só uma esmola para comprar votos;
- que as feministas são mal-comidas;
- que negros não são discriminados;
- que bandido bom é bandido morto;
- que mulher de roupa curta pede pra ser estuprada;
- que pobre só continua pobre porque se acomoda;
- que a polícia não é truculenta ou que apenas responde às agressões que sofre;
- que se combate a criminalidade aumentando as penas, reduzindo a maioridade penal e maltratando presidiários;
- que a ditadura militar foi boa para o Brasil;
- que o MST é um grupo terrorista;
- que ser viciado em drogas, se travestir ou se prostituir é falta de caráter;
- que os nordestinos é que são o problema;
- que índio é tudo safado;
- que ateísmo é sinônimo de rebeldia sem causa;
- que o Estado laico é frescura;
- que as políticas públicas devem seguir preceitos bíblicos;
- que casamento é só entre homem e mulher;
- que os black blocks são só bandidos mascarados;
- que fazer protesto e greve é coisa de desocupado e vagabundo;
- que sindicalismo é um atraso de vida;
- que o Feliciano e o Bolsonaro estão fazendo um excelente trabalho, enquanto o Jean Wyllys é o verdadeiro anti-Cristo;
- que é só coincidência que "tiros acidentais" fatais da polícia só ocorram nas periferias;
- que os "autos de resistência seguida de morte" não são execuções sumárias da polícia;
- que favelado é tudo bandido;
- que funkeiros são promíscuos e imorais;
- que as regras gramaticais devem ser sempre rigidamente respeitadas e quem não as segue é ignorante;
- que Joaquim Barbosa é o herói nacional;
- que preso doente tem que morrer, e não se tratar;
- que condenação sem prova é aceitável, desde que seja de desafetos políticos;
- que o Mais Médicos é um programa eleitoreiro e inútil, porque não faltam médicos, mas apenas infra-estrutura;
- que a Medicina deve curar doenças e não cuidar das pessoas doentes;
- que a grande mídia é neutra por não opinar expressamente sobre as notícias;
- que as piadas do Danilo Gentili são inofensivas, estando erradas as vítimas que inadvertidamente ficam ofendidas;
- que o modelo ideal de sociedade é o dos EUA - com seu culto à violência, à arma, à guerra, ao dinheiro, ao consumo e ao individualismo;
- que é o islamismo fanático a grande causa do 11 de setembro;
- que o terrorismo justifica guerras;
- que a função da escola é apenas ensinar, e não educar e formar cidadãos críticos;
- que ordem, autoritarismo e disciplina são sempre ótimos sinais;
- que "capitalismo", "burguesia" e "classe trabalhadora" são palavras sujas e proibidas;
- que Karl Marx, Che Guevara e Satanás são a mesma pessoa;
- que os estudantes da USP que protestam são maconheiros que não querem nada da vida;
- que não há nenhum problema em empresas privadas financiarem campanhas eleitorais;
- que morador de rua tem que ser varrido do mapa;
- que deveriam castrar as mulheres pobres;
- que funcionários públicos são todos vagabundos que deram um jeito de "se encostar" no Estado;
- que todo mundo que discorda de qualquer das ideias acima é malvado, por ser um comunista adorador de Stalin que quer implantar no Brasil uma ditadura cruel.

Esses sim me preocupam e desanimam, causam medo, calafrios e pesadelos.