sexta-feira, 2 de maio de 2014

Marxismo cultural


Esse marxismo cultural é que está acabando com o Brasil mesmo!

Quantas pessoas, de tanto assistirem aos jornais e novelas da Globo, da Record e do SBT diariamente, por horas a fio, acabam se revoltando com a exploração extrema do capital, pegando em armas e quebrando bancos para promover a revolução comunista?

Quantos espectadores que acabaram de assistir ao Homem Aranha, ao Homem de Ferro e ao Capitão América passam a falar apenas em mais valia, materialismo histórico e a pregar a emancipação dos trabalhadores?

Quantos milhões de pacientes não lêem nos consultórios as edições semanais da Veja, da Caras e da Boa Forma e imediatamente compram passagem para Cuba a fim de treinar táticas de guerrilha?

Quantos, após ler Paulo Coelho, Dan Brown e Augusto Cury e verem exposições do Romero Brito, não foram a Brasília tentar repetir, desta vez com sucesso, uma nova Comuna de Paris?

Quantas pessoas não vão ao teatro assistir a um stad up do Danilo Gentili ou a uma peça do Arnaldo Jabor ou do Jô Soares e, na volta, acabam se vendo obrigados a passar comprar uma camiseta do Che Guevara e a se filiar ao partido comunista?

Quanta gente, de tanto ouvir as músicas do Michel Teló, do Thiaguinho, ou do Mc Guimê, verdadeiros gritos de guerra bolcheviques, não se sentem no dever de, com outros trabalhadores, impor à força a socialização dos meios de produção?

Quantas pessoas não saem de casa e se vêem inundadas em meio a propagandas e símbolos do comunismo soviético, como a Coca Cola, o Mc Donald’s e a Starbucks, em uma conclamação direta ao leninismo?

Quantas pessoas não têm como ídolos e exemplos de vida Silvio Santos, Antônio Ermírio de Moraes e Roberto Justus, conhecidos agitadores subversivos ao sistema de dominação econômica e social?

A resposta a todas essas perguntas é, invariavelmente: milhões e milhões, quiçá bilhões, ou mesmo trilhões, de pessoas.

É, a direita precisa reagir com urgência, pois a esquerda possui mesmo o monopólio cultural de nosso tempo. Mais um pouco e estarão conseguindo construir uma sociedade mais justa e igualitária, o que é inaceitável.

Conservadores do mundo, uni-vos!

terça-feira, 29 de abril de 2014

Estopim da Nova Consciência


Eu sou filho da classe média, e, como tal, cresci com muitos preconceitos infundados em relação aos mais pobres, preconceitos esses cuidadosamente instalados em mim por todas as estruturas sociais, desde a mídia, a igreja, até a escola.

Deu trabalho pra me libertar disso tudo, se é que inconscientemente ainda não restam alguns vestígios. Fato é que chegou um determinado momento em que eu percebi que a "neutralidade" que eu tentava manter era, na verdade, uma posição covarde, extremamente útil a um dos lados da batalha, sempre o lado mais forte, que estava ganhando de lavada. Portanto, não tinha nada de “neutro”. 

Precisou de muita leitura, muito estudo, muitas conversas, muitas discussões, muita reflexão pra eu definitivamente tomar uma posição. Como diz Renato Russo:

“Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser”

Uma das coisas que eu não entendia dos mais pobres era por que muitos deles não gostavam de polícia. Pra mim, que era branco, pertencia à classe média e ouvia rock (e não funk), a polícia estava lá para nos proteger dos bandidos, e se a pessoa não gosta dos policias, só podia ser bandida. Mas eu via pessoas próximas, muito boas, que odiavam a polícia, especialmente a PM. Por que? 

Essa questão, eu vejo hoje, é de suma importância, porque entendendo esse ponto de partida se consegue compreender inúmeras questões sociais. Pelo menos foi ela quem despertou em mim a curiosidade pra saber o que de fato acontecia, indo além do que as mídias mostram de forma extremamente tendenciosa, condizente com seu projeto ideológico de dominação.

Achei o comentário abaixo perdido numa notícia do Estadão, de um morador de favela sobre o assassinato do dançarino da Globo, que resume tudo: 

"Sera que vcs classe média alta ainda não perceberam que quem mora na favela não tem medo de traficante, pois os traficantes só mexem com quem mexe com eles, aki o nosso medo é contra esses malditos policias ai que invade nossas casas e bota terror em todo mundo aki só porque é favela, o que eles fazem com nóis aki é tipo abaixa a cabeça e fica quieto e deixa nóis fazer o que quiser, aki na favela toda a noite trancamos nossas portas e fechamos nossas janelas não por causa de ladrão ou traficante, aki o medo é outro nóis tracamos tudo pra não correr o risco de acordar com um fúzil ou uma ponto 40 apontado na cara e levando esculacho na frente do filho e da esposa, mesmo sem ter uma passagem seqer, mesmo vc sendo trabalhador, eles não querem saber de nada disso, a única coisa que importa pra eles é que vc mora na favela e por isso vc não presta, essa é a nossa realidade aki."

Esse era o único comentário que não defendia a polícia e as suas execuções sumárias ao qual nenhum conservador raivoso respondeu, talvez por saberem, pelo menos inconscientemente, que o texto só diz a verdade, muito mais verdades que muito texto de articulistas, sociólogos, antropólogos, e demais "especialistas".

terça-feira, 15 de abril de 2014

Conversão à direita

Dia desses vi alguém dizer que o mundo é assim mesmo, cruel, injusto, desigual, e que devemos aceitar essa realidade e nos esforçar para vencer na vida.

Pensei a respeito e concluí que essa pessoa tem toda razão. Genial!

Antes eu achava injusto que existissem pessoas que não têm onde morar e nem o que comer, enquanto outras velejavam em seus iates e faziam coleção de Ferraris. Hoje vejo o quão idiota eu era. É tudo questão de esforço pessoal! O sistema é maravilhoso porque proporciona oportunidades iguais para todos subirem e vencerem na vida, e por “vencer na vida” entenda-se “ganhar muito dinheiro”.

Assim, quem nasce em uma favela, filho de empregada doméstica e de porteiro semi-analfabetos, tem a mesmíssima chance de se tornar presidente de uma empresa multinacional do que o filho de um executivo milionário. Tudo é questão de trabalho duro. Vi que, no mundo, 85 pessoas detêm mais riqueza do que 3,5 bilhões de pessoas e, meu deus!, como eu admiro esses 85, porque eles se esforçaram e trabalharam mais do que metade da humanidade, um exército de vagabundos, dentre os quais eu me incluo - por enquanto, pois estou me esforçando para ser o 86º!

E concluí isso porque conheci casos de gente que nasceu bem pobre e tornou-se muito rica. Acontece isso com uma pessoa em um milhão, mas pra mim já basta. É só ignorar 999.999 casos e pegar aquele único de exemplo e, pronto!, está “provado” que o sistema funciona e é bom pra todo mundo!

Por esse mesmo raciocínio, concluí que a escravidão era excelente, pois a história mostra que alguns escravos conseguiram se libertar e virar, eles mesmos, proprietários de escravos, ou seja, só continuava escravizado quem quisesse! Aliás, seguindo nesse pensamento, não existiu holocausto na Alemanha Nazista, pois houve casos de judeus e negros que conseguiram fugir e acabaram sobrevivendo, o que mostra que só morreu quem quis, comprovando que aquele regime não era cruel. Da mesma maneira, vendo reportagens sobre violência sexual percebi que algumas mulheres conseguiram reagir e se livrar de estupros, donde concluí que mulher só é estuprada quando quer, por “sem-vergonhice” mesmo, uma vez que se quisesse teria evitado a conjunção carnal.

Enfim, achar um exemplo de “superação” e com isso julgar todas as outras vítimas de determinada injustiça é sempre a melhor saída para negar a própria injustiça! O injusto vira justo num passe de mágica. Como não pensei nisso antes? Maldito petralha comunista esquerdopata que eu era!

Afinal, quantos peões de fábrica a gente não vê por aí cotidianamente comprando a fábrica onde trabalha e ficando mais rico que o próprio patrão? (Pausa reflexiva) Bom, sinceramente não estou lembrando, no momento, de nenhum caso (Walter White não vale), mas deve existir algum... Cortadores de cana, por exemplo, são todos preguiçosos, não trabalham como deveriam, já que se pegassem no batente direitinho seriam bilionários; já o Eike Baptista, esse sim é trabalhador, pois se esforçou arduamente para assinar a papelada da herança do patrimônio que o seu papai construiu aliando-se à ditadura militar, e seu filho Thor, coitado, terá o mesmo destino.

Doravante, acho absurdo o pensamento de quem discorda de mim, geralmente esses que se revoltam contra a injustiça que acomete os outros e se juntam a eles na luta para que as coisas mudem. Quem presencia uma injustiça, penso eu, tem que se calar - como diz o meu novo deputado favorito Jair Bolsonaro – e não querer ajudar. Do contrário, se estará violando o direito sagrado que o opressor tem de continuar oprimindo o mais fraco. Aí já é vandalismo!

E quando argumentam comigo, dizendo que sou insensível, eu imediatamente mudo de assunto e parto para o ataque pessoal, de duas maneiras:
(i)     perguntando por que a pessoa tem iPhone, já que o capitalismo é tão ruim, mas para isso cinicamente finjo que desconheço os fatos da internet que o celular usa ser proveniente de entidade estatal, e não do livre-mercado, e dos satélites, também usados pelo smartphone, terem sido inventados pelos comunistas; e
(ii)    perguntando por que a pessoa não doa sua casa e seus bens para os pobres, afinal, o que conta não é a luta coletiva feita de modos efetivos para resolver definitivamente o problema, e o fardo de todos esses séculos de injustiça é exclusivamente de quem se propõe a ajudar, ou seja, quem não faz voto de pobreza tem o dever de achar o capitalismo justo e maravilhoso, e nesse ponto, dissimuladamente finjo não saber que a luta dos esquerdistas é pela socialização dos bens de produção, e não dos bens pessoais.
Mas tudo bem, pelo menos desvio o assunto, pois meus argumentos pró-“trabalho duro”, por alguma razão que ainda desconheço, não costumam convencer muitas pessoas, sobretudo as mais letradas, talvez por não estarem ainda preparadas para minhas revelações tão perspicazes.

Agora me dêem licença que eu vou comentar notícias nos grandes portais, em caixa alta, xingando os miseráveis, falando mal dos direitos humanos e pondo a culpa de todos os males do país, de Cabral até hoje, no PT.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O real problema

Apesar das divergências, eu respeito os liberais convictos, que acreditam que o livre-mercado é o ideal de modelo econômico a ser adotado para se chegar à justiça social. Essa diferença de meios para se atingir um ideal é perfeitamente compreensível. A meu ver, o problema não são eles.

O problema são os que acham:
- que o bolsa família é só uma esmola para comprar votos;
- que as feministas são mal-comidas;
- que negros não são discriminados;
- que bandido bom é bandido morto;
- que mulher de roupa curta pede pra ser estuprada;
- que pobre só continua pobre porque se acomoda;
- que a polícia não é truculenta ou que apenas responde às agressões que sofre;
- que se combate a criminalidade aumentando as penas, reduzindo a maioridade penal e maltratando presidiários;
- que a ditadura militar foi boa para o Brasil;
- que o MST é um grupo terrorista;
- que ser viciado em drogas, se travestir ou se prostituir é falta de caráter;
- que os nordestinos é que são o problema;
- que índio é tudo safado;
- que ateísmo é sinônimo de rebeldia sem causa;
- que o Estado laico é frescura;
- que as políticas públicas devem seguir preceitos bíblicos;
- que casamento é só entre homem e mulher;
- que os black blocks são só bandidos mascarados;
- que fazer protesto e greve é coisa de desocupado e vagabundo;
- que sindicalismo é um atraso de vida;
- que o Feliciano e o Bolsonaro estão fazendo um excelente trabalho, enquanto o Jean Wyllys é o verdadeiro anti-Cristo;
- que é só coincidência que "tiros acidentais" fatais da polícia só ocorram nas periferias;
- que os "autos de resistência seguida de morte" não são execuções sumárias da polícia;
- que favelado é tudo bandido;
- que funkeiros são promíscuos e imorais;
- que as regras gramaticais devem ser sempre rigidamente respeitadas e quem não as segue é ignorante;
- que Joaquim Barbosa é o herói nacional;
- que preso doente tem que morrer, e não se tratar;
- que condenação sem prova é aceitável, desde que seja de desafetos políticos;
- que o Mais Médicos é um programa eleitoreiro e inútil, porque não faltam médicos, mas apenas infra-estrutura;
- que a Medicina deve curar doenças e não cuidar das pessoas doentes;
- que a grande mídia é neutra por não opinar expressamente sobre as notícias;
- que as piadas do Danilo Gentili são inofensivas, estando erradas as vítimas que inadvertidamente ficam ofendidas;
- que o modelo ideal de sociedade é o dos EUA - com seu culto à violência, à arma, à guerra, ao dinheiro, ao consumo e ao individualismo;
- que é o islamismo fanático a grande causa do 11 de setembro;
- que o terrorismo justifica guerras;
- que a função da escola é apenas ensinar, e não educar e formar cidadãos críticos;
- que ordem, autoritarismo e disciplina são sempre ótimos sinais;
- que "capitalismo", "burguesia" e "classe trabalhadora" são palavras sujas e proibidas;
- que Karl Marx, Che Guevara e Satanás são a mesma pessoa;
- que os estudantes da USP que protestam são maconheiros que não querem nada da vida;
- que não há nenhum problema em empresas privadas financiarem campanhas eleitorais;
- que morador de rua tem que ser varrido do mapa;
- que deveriam castrar as mulheres pobres;
- que funcionários públicos são todos vagabundos que deram um jeito de "se encostar" no Estado;
- que todo mundo que discorda de qualquer das ideias acima é malvado, por ser um comunista adorador de Stalin que quer implantar no Brasil uma ditadura cruel.

Esses sim me preocupam e desanimam, causam medo, calafrios e pesadelos.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Uso de animais em experimentos

Publico o texto de um amigo meu, Guilherme Kamitsuji, sobre os experimentos com animais, com o qual eu não necessariamente concordo, mas acho a discussão muito relevante.

"Ganhou grande repercussão na mídia o grupo que invadiu o instituto Royal para libertar os cães da raça Beagle utilizados em experimentos. E mais uma vez, foi novamente aberto o debate sobre a utilização de animais em pesquisas científicas, evidenciando muitas vezes que por trás de argumentos supostamente a favor da bioética, se escondem apenas visões apaixonadas e desconhecimento científico.

Um argumento aceito sem nenhuma contestação, quase uma verdade absoluta, utilizado pelos ativistas dos direitos dos animais, é o de que os países “civilizados” estão abolindo de vez o uso de animais em experimentos.

 Antes de mais nada, o que não levam em consideração é a amplitude das pesquisas em saúde. Temos pesquisas sobre doenças causadas por parasitas, vírus, fungos, bactérias e tumores, doenças auto imunes, doenças tropicais (ex. malária, doença de Chagas), doenças decorrentes do estilo de vida moderno, como é o caso do diabetes e a hipertensão, e das relativas ao aumento da longevidade. E claro, existem as pesquisas sobre a eficácia de medicamentos para todas essas doenças. Pergunto: todas essas doenças utilizam o mesmo tipo de experimento? São todas pesquisadas da mesma forma. A resposta, obviamente, é não, cada uma delas possui peculiaridades que podem afastar, ou não, o uso de animais.

Existem muitos tipos de pesquisa em que o uso de animais já está sendo dispensado, como no caso de alguns cosméticos. Mas não é verdade que o uso dos animais é dispensável para todos os tipos de experimentos. Infelizmente isso ainda não é possível. A diversidade de doenças e remédios é tão grande que não existe um modelo de experimento comum a todos eles. Cada tipo de doença, cada classe de medicamentos possui especificidades que podem, ou não, exigir que animais sejam utilizados nos testes.

Outro argumento utilizado é o de que apenas 6% (alguns dizem 10%, outros 1%, aí a manipulação de dados rola solta) desses experimentos tem algum resultado conclusivo, chegando, de fato, a testes clínicos em humanos, o que levaria à conclusão de que os testes em animais deveriam ser abolidos.

Ocorre que o que eles não se dão conta é que a ciência se faz com base em tentativas e em observação, principalmente quando se trata das biomédicas. E sempre ocorrem muito mais erros do que acertos, porque não são ciências exatas. Os animais – nós incluídos – têm uma infinidade de características que podem levar a respostas diferentes a um determinado medicamento. Apenas para exemplificar: os cães têm alguns tipos de anticorpos que não temos, o mesmo para os ratos, os bovinos etc. E seu organismo pode metabolizar ou não algumas substâncias. Isso sem contar que as características individuais, como idade, peso, tamanho, tipo sanguíneo, entre outros, podem influenciar no resultado do experimento.

Só com base nessas variáveis descritas já é possível ver que para chegar a uma conclusão simples, como a de que para tratar uma infecção é necessário tomar dois comprimidos de 1 mg, duas vezes ao dia, por uma semana, é necessário um número enorme de experimentos e testes, antes de se chegar a um dado seguro. Isso sem contar os testes que foram feitos para chegar à conclusão de que um determinado fármaco é eficiente para combater uma determinada doença.

É por isso que aquela porcentagem, embora pequena, em nada serve para abolir o uso de animais. Para se chegar a um dado conclusivo é preciso uma quantidade enorme de testes, que em sua maioria vai dar errado. Seria ótimo se houvesse outro jeito. O que os ativistas não conseguem é mostrar alternativas. Só dizem que a porcentagem é baixa e que por isso deve acabar. Ponto.

A todo instante nos deparamos com novas doenças. Quem há dez anos achava que teríamos uma gripe nova, como foi a gripe suína e a aviária? Há 40 anos não conhecíamos a AIDS. Não é questão de colocar o dinheiro em primeiro lugar. Medicamentos importantes, vacinas e outros tipos de tratamentos são desenvolvidos com base em testes em animais. Drogas para câncer, AIDS, pesquisas com células tronco, tudo isso hoje é pesquisado com animais.

A todo momento nós temos que lidar com doenças novas, novas drogas são descobertas, podem aparecer novos tipos de neoplasias, os microorganismos estão em constante mutação, enfim, não se pode generalizar, nem todos os testes dispensam o uso de animais, infelizmente. Seria ótimo se fosse desse jeito, mas não é.
E mais: quem disse que conhecemos tudo sobre fisiologia, biologia molecular, genética, imunologia, farmacologia etc? Ainda há muito a ser descoberto e pesquisado. E os animais ainda terão muito a contribuir nessas descobertas. Descobertas que um dia podem ser a diferença para a cura da AIDS, da dengue, do mal de Alzheimer, entre tantos outros males que matam milhões de pessoas todos os anos.

Causa muita comoção ver animais serem utilizados em experimentos. Mas antes de criticar, de chamar os cientistas de mercenários, os ativistas precisam entender como se faz pesquisa, quais são as variáveis envolvidas, o que dispensa e o que não dispensa o uso de animais, antes de chegar a posicionamentos radicais como o de que os testes devem ser abolidos por completo. Ciência se constrói com base em tentativas e, principalmente, em somatória de conhecimentos, das contribuições de todos os pesquisadores. Seria muito mais útil se apontassem alternativas factíveis, e não argumentos rasos como “os países europeus já estão abolindo”, sem levar em conta qual tipo de medicamento ou doença está se levando em conta."

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Estágio obrigatório no SUS e a função social da Medicina

Fato 1: Médicos raramente ou nunca fazem manifestação contra os planos de saúde que tanto os exploram e nem contra as más condições do SUS e nem contra a concessão de diplomas por faculdades de fundo de quintal.

Fato 2: Entidades médicas não soltam notas de repúdio contra profissionais que (i) batem o ponto e vão embora, no SUS; (ii) cobram “por fora” consultas do SUS, (iii) passam na frente pacientes “particulares” (sem convênio), em detrimento dos que arcam com planos de saúde, (iv) cobram “por fora” dos convênios para realizar procedimentos complexos (v) sendo peritos, sempre inocentam seus colegas, mesmo que tenham cometido erros grosseiros, (vi) atrasam reiteradamente o horários das consultas.

Fato 3: O Programa Mais Médicos hoje paga R$ 10.000,00 por mês (mais uma ajuda de custo que chega a R$ 30.000,00 nos primeiros meses), valor que não pode ser considerado totalmente fora do que o mercado privado paga para quem acabou de se formar em Medicina.

Levando em consideração esses fatos, por que está havendo esse reboliço todo da classe médica contra as medidas pretendidas pelo governo federal para distribuir territorialmente os médicos e melhorar a saúde pública em áreas remotas do Brasil?

A inexistência de médicos em lugares longínquos é um problema de mercado, afinal, eles não querem ir onde precisariam, por não receber tanto quanto acham que merecem ou por outras razões. O Estado tem duas opções: aceitar o problema ou tentar combatê-lo.

Deixar tudo como está, como fez até agora, está fora de cogitação. Ao querer resolver a celeuma, devem ser adotadas algumas políticas públicas, que podem ou não contrariar interesses de classe. Pagar R$ 10.000,00 a médicos recém formados certamente é uma boa tentativa de solução. Mas e se mesmo assim, 90% das vagas não foram preenchidas? O que está ocorrendo é que os médicos não querem ir, mesmo que por altos salários, para os lugares onde não há médicos. Como corrigir essa falha de mercado, então?

A ideia do plano de carreira pública é totalmente válida, uma vez que fixaria os médicos aos lugares menos favorecidos. Porém, juridicamente, há ainda o problema da competência constitucional para regular a matéria da saúde, uma vez que os hospitais públicos são administrados pelos Estados e Municípios, e não pela União. Quanto tempo demoraria para que todas as cidades tivessem um plano de carreira? Nesse meio-tempo, quantos miseráveis precisariam morrer por não ter um profissional que apenas diga por que eles estavam com febre e receitasse o remédio correto? Não obstante, é fácil prever que meso se adotada a medida, ainda assim os médicos, no mais das vezes, não serão atraídos a lugares esmos. O exemplo de São Paulo é eloqüente: recentemente foi instituída uma carreira pública com remuneração inicial superior a R$ 14 mil e mesmo assim não se preencheram as vagas disponíveis nas periferias e nas cidades mais afastadas. Pior, a mídia tem divulgado diversos casos de cidades muito longínquas totalmente bem equipadas e dispostas a pagar salários de quase R$ 20 mil, muito acima do "valor de mercado" do recém-formado, onde simplesmente não há candidatos ao trabalho. Não adianta se iludir e achar que a solução é só dinheiro. Não é.

E a solução de obrigar os recém-formados a ir aos locais onde não há médicos? Não parece uma boa solução, colocada dessa maneira, pois uma democracia não pode forçar, sob pena de sanções, pessoas livres a se deslocarem para onde não desejam ir. Seria uma espécie de serviço civil obrigatório, de notória inconstitucionalidade.

E dar ao médico que terminou a faculdade uma licença provisória e parcial para que apenas possa trabalhar na saúde pública por algum tempo, para depois exercer plenamente a profissão?

A questão, no fundo, é escolher se a Medicina será usada em benefício social ou se vai ser um mero instrumento mercantil de enriquecimento individual.

Pensemos no seguinte: por que é tão bonito que um médico recém-formado aceite ir trabalhar em uma região longínqua, sem ter disponíveis os confortos dos grandes centros, apenas pela satisfação de cuidar dos necessitados? Arriscaria responder que é porque se trata de um ato de cidadania e de solidariedade. Mas, ora, a cidadania e a solidariedade não são exatamente a base de uma sociedade mais justa e igualitária que se quer construir, em oposição à atual, baseada exclusivamente no individualismo, no consumismo e no dinheiro? Por que o Estado não pode adotar medidas para institucionalizar esses valores no acesso à saúde pública? Seria esse caso tão diferente de exigir que uma empresa cumpra sua função social, como determina a Constituição? Tendo a crer que não.

O Estado pode regulamentar os requisitos para a concessão do diploma. Há autorização constitucional para tanto no artigo 5º, inciso XII, da Carta Magna de 1988, segundo o qual “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”. Ainda, no inciso XVI do artigo 22 da Carta há atribuição expressa à União para impor "condições ao exercício de profissões".

Com efeito, então, estabelecer como requisito para qualificação profissional o estágio na saúde pública, além ter autorização expressa no ordenamento jurídico, parece ser um eficiente mecanismo de efetivar o direito fundamental à saúde, nos termos do artigo 6º da Constituição Federal. 

Outros cursos têm previsão de obrigatoriedade de estágio para a concessão do diploma, por que Medicina não pode ter? Nas faculdades de licenciatura, os alunos recentemente fizeram protestos e greves contra um programa do governo de SP que, por mais paradoxal que seja, diminuiu ou acaba com o estágio obrigatório, exatamente porque trata-se de uma etapa extremamente importante na formação do professor, cuja falta seria sentida na deterioração ainda maior da educação no Estado.

Dois valores estão em conflito aqui: de um lado o direito individual do médico-formando de utilizar os seus anos de estudos como ele bem entender e, de outro, o direito dos mais pobres de terem acesso à saúde. O Estado deve fazer o seu juízo de valor e decidir qual desses valores irá privilegiar. A medicina cidadã e social, voltada à saúde, ou uma medicina mercanitilizada, voltada ao dinheiro. É sintomático de uma sociedade enfraquecida que as pessoas se solidarizem muito mais com estudantes de medicina do que com as pessoas que adoecem e morrem por não terem acesso a médicos.

“Ah, mas o médico merece ganhar bem e ter o direito de escolher porque ele estudou para isso.” Outros profissionais de outros ramos também estudam até muito mais do que os médicos e recebem muito menos. Ofereça-lhes mais de R$ 10.000,00 por mês e, em geral, eles não vão trabalhar em qualquer canto do país. Por que a medicina tem que ser essa casta intocável? Porque o “mercado”, essa entidade inteligente, assim o deseja, já que ultra-valoriza esse profissional? Mais uma vez saliento, cabe ao Estado corrigir essas distorções anti-sociais do mercado. Ademais, seria uma situação temporária, vez que após recebida a licença definitiva vai ser perfeitamente possível o médico atuar, legitimamente ou não, apenas para o próprio enriquecimento.

A mensagem seria clara: “Esta sociedade não aceita que a Medicina, dado o seu essencial valor social, seja utilizada exclusivamente para fins particulares; para exercê-la, a pessoa tem o dever de colaborar solidariamente, ao menos um mínimo, com o acesso e direito à saúde dos demais cidadãos que se vêm apartados do sistema de saúde pública.”

O Estado, então, pode determinar que a licença definitiva do médico só será dada depois de realizado um período de trabalho nos lugares onde faltam médicos, ou seja, nas periferias e sertões do Brasil. Nunca é demais lembrar que, nos termos da Constituição Federal de 1988, nossa República tem como fundamento a cidadania e os valores sociais do trabalho (artigo 1º), além de ter como objetivos fundamentais a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a promoção do bem de todos e a redução das desigualdades sociais e regionais (artigo 4º), valores que no fim das contas, como já dito, coincidem com a motivação desejável do médico que se forma e vai, por puro idealismo, para os sertões do Brasil.

Penso, contudo, que o lugar onde esse serviço se dará deveria ser escolha do formando, mas se não houver vaga onde ele quiser, deve, então, esperar que alguma seja aberta, o que obviamente atrasaria a concessão da licença definitiva. Imagino, ainda, que deve haver atribuição de pontos extras nas provas de residência aos que forem para áreas distantes - já que a Medicina daqui é de culto à especialização, da qual a residência é uma etapa praticamente obrigatória (e nunca ninguém reclamou). Mais do que isso, em relação a áreas realmente críticas, deve haver uma redução no tempo de estágio, como incentivo a mais para que essas localidades sejam escolhidas.

Um dos efeitos colaterais benéficos dessa nova etapa de formação é que o médico recém-formado irá ter contato com as pessoas do mundo real, com seres humanos comuns, com os verdadeiros brasileiros, muito diferentes daqueles pacientes das clínicas particulares e dos casos escabrosos e incomuns dos hospitais universitários. Essa experiência é fundamental para o exercício digno e humano da medicina, totalmente conforme o juramento de Hipócrates feito por todos os médicos, que embora não tenha força jurídica, certamente possui grande valor moral.

Outros países já perceberam nessa obrigatoriedade um modo de efetivar a função social da Medicina e o direito fundamental à saúde de seus cidadãos. Suécia e Reino unido, por exemplo, países que consideramos democráticos, condicionam a licença para atuar como médico a dois anos de serviço obrigatório no sistema público de saúde.

Outrossim, o estágio obrigatório, nos moldes propostos, não se confunde com o vedado deslocamento compulsório ou serviço civil obrigatório, afinal, não há uma punição severa para quem não for trabalhar nos lugares determinados onde faltam médicos, sendo certo que a pessoa apenas sofrerá o dissabor de esperar mais para receber a licença definitiva, o que se encontra dentro das prerrogativas do Estado, como já dito. Quantos profissionais de outras áreas não são obrigados a migrar após se formarem, pois na região onde moram e fizeram o curso de graduação não há vagas na profissão que escolheram?

Por fim, em relação aos médicos estrangeiros, é muito positiva a ideia de criar uma prova diferenciada de revalidação de diploma, que confira licença provisória e limitada, para profissionais de outros países atenderem apenas na medicina básica e, ainda assim, nos lugares onde não há médicos. Afinal, todos sabem que o Revalida atual foi feito para reprovar, com perguntas extremamente difíceis e capciosas, que nada têm a ver com a medicina básica que falta nos interiores do país. O Brasil é um dos países onde há menos médicos estrangeiros, menos de 2% do total. Por que esse medo de abrir as portas aos profissionais de fora? Parece haver um excessivo protecionismo de classe. Diga-se, ainda, que se o argumento é que os médicos de fora precisam passar por uma prova difícil para proteger os pacientes de maus médicos (o que é perfeitamente justo), então, levando-se a ferro e fogo essa ideia de proteger os pacientes, teríamos que obrigar todos os médicos, brasileiros ou não, a passarem periodicamente por uma prova de dificuldade igual ao Revalida. 

Não seria mais simples, justo e produtivo criar uma nova prova remodelada para estrangeiros exercerem a medicina básica e preventiva? (Isso tudo para não dizer que há países desenvolvidos que sequer exigem alguma prova, bastando a comparação de grades curriculares para a concessão da licença para o médico trabalhar. No Canadá e Austrália, por exemplo, existe um exame de validação do diploma igual o Revalida, mas também há programas específicos que dão autorização especial para o médico atuar na áreas de maior carência de médicos.) Inclusive, pesquisas de opinião recentes mostram que, apesar dos esforços dos médicos para passar à população a ideia de que não faltam médicos e que os médicos estrangeiros são uma ameaça, a maioria apoia a vinda deles para onde os daqui não se interessam em ir.  

No meio tempo, obviamente, os governos devem fazer a sua parte: (i) melhorar as condições de exercício da Medicina, implementando infra-estrutura adequada, (ii) garantir que os profissionais, nesses locais distantes, tenham acompanhamento de profissionais já capacitados, como professores das universidades federais, (ii) revolucionar o currículo do curso de Medicina, para que dê ênfase na medicina humanista, preventiva e da família – com ênfase na pessoa humana do paciente-cidadão, através da interação e do diálogo médico-paciente, e não apenas na doença, nos exames e nos remédios – muito mais barata e eficiente para a melhoria da Saúde do que o modo mercantil atual, de ultra-especialização e concentração geográfica, (iii) ampliar radicalmente o número de vagas dos cursos de Medicina, com qualidade, (iv) implementar uma carreira pública de medicina, tal como a de juiz ou promotor.

Chegou a hora de ouvir a voz das ruas, que pediam melhoras na saúde pública. Os médicos têm o direito de se posicionarem contra medidas estatais que de alguma forma conflitam com seus interesses de classe, todavia, como restou demonstrado, a sociedade justa e solidária que, de acordo com a Constituição Federal de 1988, pretende-se construir não dá respaldo a seus argumentos meramente individualistas; mais do que isso, o que toda a ordem social está clamando é que se efetive, a curto, médio e longo prazo, a função social da Medicina e, por consequência, o acesso e direito à saúde de todas as pessoas.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Financiamento público de campanhas já!

A grande mídia vai começar agora uma campanha contra o financiamento exclusivamente público de campanhas eleitorais. Nada mais previsível, já que ela própria se beneficia largamente dando dinheiro para políticos aliados se elegerem.

Mas vamos pensar um pouco sobre o financiamento privado de campanhas: Empresa não fazem caridade, então, por que financiam campanhas de políticos? Obviamente se trata de um investimento da empresa, que vai cobrar daquele político, se eleito, a aprovação de projetos que a beneficie, e não necessariamente que melhorem a vida dos cidadãos. Essa relação promíscua entre dinheiro e política é uma das grandes raízes da corrupção. E já que um dos grandes problemas do país é a corrupção, o financiamento exclusivamente público é um dos melhores antídotos.

Ou será que um Presidente da República financiado por um grande complexo de hospitais vai aprovar projeto de melhora da saúde pública? Ou será que o deputado que recebeu dinheiro das grandes indústrias farmacêuticas vai ser a favor à distribuição gratuita de remédios? Ou será que o Senador que recebeu doações de uma associação de escolas particulares vai ter interesse em melhorar a qualidade do ensino público?

Todos podem ter direito a voto, mas enquanto um candidato - por ter recebido fortunas, por exemplo, de construtoras, grandes indústrias, empresas de mídia, grandes bancos, igrejas – tiver centenas ou milhares de vezes mais dinheiro para realizar sua campanha eleitoral que outro, os votos vão ter pesos muito diferentes.

O financiamento privado de campanhas é uma fraude à democracia, pois, no fim das contas torna-se um modo daqueles que possuem mais dinheiro comprar o voto dos cidadãos mais pobres, que, em geral, por não terem a devida instrução e educação política ou crítica, acabam votando no candidato cuja campanha tem mais projeção, ou seja, os que receberam mais dinheiro e que possuem mais dívidas com as grandes empresas.

Em todo ano de eleição são jogados pelo ralo bilhões de reais que poderiam ser muito bem gastos em outras áreas com maior benefícios sociais. É certo que com o financiamento público esse montante vai diminuir muito e, apesar do dinheiro sair dos cofres públicos, o retorno em termos de diminuição da corrupção e de reais investimentos sociais dos projetos políticos, direcionados agora exclusivamente a beneficiar os cidadãos, não as grandes corporações, será infinitamente maior do que os gastos.


Financiamento público já!